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IPO Reverso: estratégia que está levando novas empresas à Bolsa de Valores

Foto: divulgação.

Por André Vasconcellos, diretor de estratégia, planejamento e relações com investidores da Fictor Alimentos S.A.

Uma empresa brasileira do setor de proteínas animal surpreendeu o mercado ao anunciar sua entrada na bolsa de valores por meio de uma estratégia não tão comum no país: um “IPO reverso”. A operação, que consiste na aquisição do controle de uma companhia já listada, seguida de uma reestruturação societária, permitiu que a empresa acessasse o mercado de capitais de forma mais ágil e eficiente.

A precursora daquilo que pode ser uma tendência para o mercado em 2025 foi a Fictor Alimentos S.A. (B3: FICT3), mas outras companhias podem trilhar o mesmo caminho nos próximos meses, já que, em um horizonte de curto prazo, o ambiente para IPOs não é nada favorável no Brasil. No fim de janeiro, por exemplo, foi a vez da Reag Investimentos S.A. (B3: REAG3) estrear no Novo Mercado da bolsa de valores brasileira.

A estratégia atípica conhecida como “IPO reverso”, além de agilizar a entrada no mercado, possibilita que uma empresa acelere seus planos de expansão, focados em crescimento inorgânico por meio de fusões e aquisições, permitindo o acesso a um leque mais amplo de oportunidades de financiamento, tanto por meio de instrumentos de dívida quanto de equity.

No caso da Fictor Alimentos, a companhia aberta busca, a partir de agora, atrair o interesse de investidores que desejam participar do crescimento do agronegócio brasileiro. O país, que possui claras vantagens competitivas no setor, atrai olhares de todo o mundo, e a empresa listada se posiciona para aproveitar esse cenário favorável e promissor.

A decisão de acessar o mercado de capitais por meio dessa modalidade surgiu como uma alternativa mais viável em um contexto de desafios para as ofertas públicas iniciais, que minguaram nos últimos anos. A última vez que o Brasil viu um IPO foi em 2021 e, desde então, o ambiente macroeconômico não tem ajudado a mudar esse quadro.

E, com a taxa básica de juros a 14,25% ao ano e projeções de aumentos futuros, fica ainda mais difícil vislumbrar qualquer novo IPO neste ano, mesmo após tantos anos de “seca”. A solução para muitas empresas é mesmo buscar novos caminhos para viabilizar seus negócios.

O caminho dos IPOs tradicionais pode ser difícil. Segundo um levantamento da consultoria Elos Ayta, as ações que estrearam no mercado em 2020 e em 2021, no geral, se desvalorizaram. Considerando a mediana da rentabilidade, elas caíram 54,6% até o fim de 2024.

Dados mostram que muitas empresas que abriram capital nos últimos anos têm enfrentado dificuldades, impactadas justamente pelas altas taxas de juros. A nova estratégia, por sua vez, oferece um caminho mais rápido e com custos reduzidos para acessar o mercado de capitais.

A Fictor Alimentos é um exemplo de quem já colhe os frutos dessa estratégia inovadora. No acumulado dos últimos dois meses, as ações da companhia destoaram completamente do setor e do mercado em geral, apresentando uma valorização impressionante e uma redução drástica nas posições vendidas (ou seja, baixa importante nas operações “shorteadas”). Isso mostra que o mercado acredita que a tendência é de alta e que não há dúvidas relevantes sobre o desempenho futuro da companhia.

Uma comparação com outros investimentos durante 2024 comprova o brilho de teses de aquisições estratégicas: apenas no mês de dezembro, as ações FICT3 valorizaram-se 121,43%, mais do que dobrando de valor no último mês do ano. Para comparar, em segundo lugar ficou o índice BDRx, que resume a valorização dos BDRs, ações de empresas internacionais listadas na B3. O BDRx avançou 4,64%, apesar da alta de 2,29% do dólar Ptax naquele mês.

A comparação com o acumulado de 2024 também é válida: ao longo de todo o ano passado, esses papéis se valorizaram 314,79%. Esse avanço foi quase o dobro dos ganhos vistos no Bitcoin, que avançou 184% no período, puxado pelo otimismo com a expectativa de um afrouxamento regulatório pelo novo governo americano.

O “IPO reverso” tem se destacado como uma alternativa viável para empresas privadas que enfrentam dificuldades em atender aos requisitos tradicionais de listagem na bolsa de valores. Embora esse modelo ofereça vantagens como acesso mais rápido ao capital e custos operacionais reduzidos, é fundamental que as companhias avaliem cuidadosamente os prós e os contras antes de optar por esse caminho.

Outro benefício importante é o maior controle sobre o preço das ações. Em um IPO convencional, as ações da empresa são ofertadas ao público em um processo de precificação que pode ser influenciado por diversos fatores externos, como as condições do mercado e a demanda dos investidores. No “IPO reverso”, o processo societário oferece um nível de controle maior sobre as condições da operação e o preço das ações. Isso reduz as chances de volatilidade excessiva no valor das ações logo após o início das negociações, o que é um risco comum em IPOs tradicionais, especialmente em períodos de incerteza no mercado.

Esse fator também torna o “IPO reverso” uma alternativa mais segura para maior democratização do mercado de capitais, especialmente para empresas de menor porte e em mercados emergentes, que podem não ter o mesmo nível de estabilidade que grandes corporações ao realizar um IPO tradicional. A tendência é que cada vez mais empresas adotem essa estratégia para viabilizar sua entrada no mercado de capitais. Resta acompanhar de perto essa movimentação e seus impactos no cenário nacional.

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