Por Evandro Lopes, CEO da SLcomm.
O mito do líder incansável está ruindo. Durante décadas, o sucesso executivo foi vinculado à resistência física e ao sacrifício do sono, como se dormir pouco fosse sinal de alta performance. Entende-se hoje, porém, que essa visão é incompatível com a ciência e com a própria realidade das organizações, e percebo que o descanso passou a ser tratado como ativo estratégico em empresas que buscam sustentabilidade emocional e intelectual na liderança. O sono não é intervalo, é o sistema operacional da mente.
Estudos recentes revelam que o impacto da privação de sono ultrapassa a fadiga. A RAND Corporation estima perdas globais de US$ 680 bilhões por ano. A Harvard Medical School demonstra que profissionais com sono insuficiente perdem até 11 dias de produtividade anual. A National Safety Council afirma que 21% dos acidentes de trabalho graves envolvem pessoas com privação de sono. Tais números confirmam minha opinião de que a privação de sono se tornou questão macroeconômica e corporativa, e dados da OMS indicam que distúrbios de sono já atingem um terço da população adulta mundial, ampliando o impacto desse problema.
Durante o sono profundo e o sono REM, o cérebro reorganiza suas funções de maneira estratégica. O hipocampo transfere memórias, o sistema glinfático remove toxinas, e o córtex pré-frontal recupera o controle emocional. Essa arquitetura neurológica é o que sustenta a qualidade da liderança moderna, e pesquisas publicadas na revista Nature mostram que líderes com sono regulado têm 28% mais precisão em decisões complexas, evidenciando o peso cognitivo do descanso. Essa regulação emocional diferencia líderes reativos de líderes claros e empáticos.
A ideia de que o sono é perda de tempo parte de uma visão mecanicista do desempenho. Pesquisas do Walter Reed Army Institute mostram déficits cognitivos equivalentes a uma noite inteira sem dormir após dez dias dormindo menos de seis horas. Esses dados provam que a autopercepção do líder fica comprometida quando o sono é negligenciado, e relatórios do American Psychological Association indicam que 45% dos executivos subestimam sua própria fadiga, o que agrava decisões imprecisas sem que percebam. Privar-se do sono reduz a inteligência executiva e elimina a consciência dessa perda.
Alguns gestores argumentam que dormir pouco é um mal necessário. No entanto, essa justificativa não resiste à análise ética e estratégica, sobretudo quando pesquisas da McKinsey mostram que líderes bem descansados aumentam em 24% o engajamento das equipes, reforçando a tese de que descanso também é ferramenta de influência. Um estudo da INSEAD revela que líderes que dormem bem são percebidos como mais confiáveis e eficazes, confirmando o papel do sono como elemento silencioso de autoridade.
Liderar, portanto, é também saber pausar. Percebo que dormir tornou-se ato de coragem em ambientes que ainda glorificam o cansaço, porque descansar desafia a lógica ultrapassada da produtividade a qualquer custo. No silêncio do sono, o cérebro recalibra suas sinapses, restaura equilíbrio químico e prepara a mente para pensar com lucidez e agir com empatia. É considerado hoje que o futuro pertencerá não aos que dormem menos, mas aos que compreendem que a clareza é a nova força da liderança.