O burnout entrou oficialmente para a lista de doenças reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde como motivo de afastamento laboral.
Uma condição grave, marcada por exaustão emocional, cinismo em relação ao trabalho e queda de produtividade. Um colapso interno silencioso que vem atingindo trabalhadores das mais diversas áreas.
Mas e se estivermos procurando o culpado no lugar errado?
Será que é mesmo o trabalho que está nos adoecendo? Ou será que nosso estilo de vida digital está drenando nossas energias antes mesmo de o expediente começar?
Pense em quantas pessoas colocam o despertador para 6h30 da manhã, mas só saem da cama às 7h00 porque gastaram 30 minutos rolando o feed de redes sociais.
O corpo ainda está deitado, mas a mente já está acelerada, lidando com notícias ruins, cobranças disfarçadas de motivacional e comparações com vidas editadas e inalcançáveis.
Quantos, ao final do dia, se jogam no sofá para “descansar”, mas passam horas maratonando séries na Netflix ao mesmo tempo em que jogam algo no celular e respondem mensagens no WhatsApp? Chama-se lazer, mas é uma sobrecarga sensorial. Uma multitarefa disfarçada de entretenimento.
E isso se repete dia após dia. Sem espaço para silêncio. Sem tempo para introspecção. Sem descanso de verdade. O corpo pode até estar parado, mas o cérebro não desliga. Estamos em constante estado de alerta, de vigília, de consumo de conteúdo.
A pergunta que não cala é: se você se sente esgotado o tempo todo, mas não trabalha o tempo todo, para onde está indo sua energia?
Talvez estejamos culpando o trabalho quando, na verdade, é o que fazemos com nosso tempo fora dele que tem nos adoeçido. Talvez seja a hiperconectividade que nos impede de descansar.
Talvez seja o excesso de estimulação digital, a pressão social virtual, o medo de ficar de fora (o famoso FOMO), o ciclo interminável de atualizações, curtidas, reels, trends e afins.
Não se trata de inocentar ambientes de trabalho abusivos, eles existem e são danosos. Mas é preciso abrir o leque da reflexão. Porque enquanto discutimos jornadas de trabalho flexíveis, talvez devêssemos também discutir jornadas de tela menos cruéis.
Talvez a solução para o burnout passe também por reeducar nossa relação com o digital. Estabelecer pausas reais. Redescobrir o tédio criativo.
Fazer uma caminhada sem fones. Largar o celular enquanto espera na fila. Comer sem distrações. Dormir sem a luz azul de fundo.
Em um mundo onde descansar virou luxo e estar online virou norma, talvez o maior ato de autocuidado seja reconquistar o direito ao vazio, à pausa, ao não fazer nada.
Antes de rotular o burnout como apenas mais um efeito colateral do capitalismo, talvez devêssemos nos perguntar: você está realmente vivendo demais para o trabalho ou apenas está se perdendo em tudo o que faz fora dele?
Pode ser dolorido admitir, mas talvez o vilão não esteja apenas no escritório. Talvez ele esteja também na palma da nossa mão, em todos os minutos que não conseguimos mais ficar desconectados nem de nós mesmos.