Por Luciana Shimizu Morya, fundadora do INKI.
Antes de divulgar qualquer informação em saúde, especialmente nas redes sociais, o compromisso com o rigor científico deixou de ser uma virtude desejável para se tornar um requisito ético e de segurança pública. A desinformação médica já é tratada por organismos internacionais como um risco global, com impacto direto na confiança nas vacinas, na adesão a tratamentos e na relação entre pacientes, profissionais e sistemas de saúde.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) descreve a infodemia como o excesso de informações (corretas ou não) que acompanha surtos e emergências sanitárias, confundindo o público e dificultando decisões seguras. Durante a pandemia de covid-19, esse ambiente favoreceu a circulação massiva de boatos sobre supostas curas, medicações ineficazes e teorias conspiratórias, tornando mais difícil organizar respostas baseadas em evidências.
No cenário pós-pandemia, a infodemia não arrefeceu: ela migrou de tema, passou das máscaras e da cloroquina para novas vacinas, doenças emergentes, autismo, saúde mental e terapias “naturais” sem comprovação. Esse ciclo contínuo de boatos cria fadiga informacional, alimenta polarização e empurra parte da população para bolhas de conteúdo nas quais a ciência é sistematicamente desacreditada.
Dimensão do problema
Relatório recente da Unesco indica que a desinformação figura entre os principais riscos globais para 2026 e anos subsequentes, superando inclusive ameaças ambientais ou geopolíticas em algumas análises. Outros estudos citados por organismos internacionais apontam ainda que conteúdos falsos se espalham várias vezes mais rápido do que informações verdadeiras em plataformas digitais, o que torna o trabalho de correção sempre tardio em relação ao dano causado.
No campo específico da saúde, pesquisas mostram que uma grande parcela dos brasileiros já foi exposta a fake news sobre doenças, tratamentos ou vacinas, e que esse impacto não é neutro: ele corrói a adesão às campanhas de imunização, piora índices de cobertura vacinal e favorece o retorno de doenças controladas. O levantamento recente do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas, da Fundação Getúlio Vargas (DesinfoPop/FGV), sobre antivacinismo na América Latina indica que o Brasil concentra 40% de todo o conteúdo do continente, um volume expressivo de mensagens falsas ou enganosas sobre imunização em comunidades digitais, respondendo por centenas de milhares de postagens antivacina e por uma fatia relevante de todo o conteúdo desse tipo na região.
Desinformação em saúde
No ambiente digital brasileiro, o tema saúde ocupa lugar central nas correntes de desinformação, especialmente em debates sobre vacinas, autismo, covid longa, dengue e alternativas “milagrosas” a tratamentos convencionais. Órgãos públicos e conselhos profissionais relatam que notícias falsas sobre vacinas e terapias dominam redes sociais, levando pacientes ao erro e tensionando a relação com médicos e equipes de enfermagem na prática cotidiana.
Estudos recentes sobre a circulação de mensagens antivacina em aplicativos de mensagens e canais conspiratórios apontam um crescimento exponencial desse conteúdo desde 2019, com volume ainda dezenas de vezes superior ao período pré-pandemia. Ao mapear centenas de milhares de mensagens em comunidades conspiratórias, pesquisadores destacam que o Brasil lidera tanto em quantidade de conteúdo quanto em número de usuários ativos engajados com narrativas falsas sobre imunização, o que reforça a urgência de respostas coordenadas no país.
Medo e milagres
Pesquisadores que analisam o ecossistema de desinformação chamam atenção para um aspecto pouco discutido: há um mercado estruturado por trás de muitas fake news em saúde. As mensagens conspiratórias costumam seguir uma lógica de funil: primeiro semeiam medo sobre vacinas, remédios ou procedimentos, depois oferecem produtos, cursos e terapias “alternativas” como suposta solução segura, sem qualquer base científica.
Nesse modelo, a desinformação é transformada em combustível para engajamento digital, cliques e vendas, favorecida por algoritmos que amplificam conteúdos que despertam choque e indignação. A fronteira entre opinião, marketing agressivo e violação ética torna-se difusa, criando um terreno em que profissionais de saúde, influenciadores e perfis anônimos se misturam, nem sempre deixando claro se falam como especialistas, vendedores ou militantes ideológicos.
Rigor indispensável
Considerando esse aspecto, o rigor científico torna-se, mais do que nunca, um antídoto central contra a desinformação em saúde – não apenas dentro de hospitais e universidades, mas em cada texto, postagem ou entrevista que chega ao público.
Para jornalistas, comunicadores e equipes de imprensa, “revisar antes de divulgar” significa retornar ao ABC da apuração: checar evidências, buscar consenso em diretrizes oficiais, consultar fontes qualificadas, contextualizar estudos e explicitar os limites do conhecimento disponível.
Para profissionais de saúde, a responsabilidade envolve revisar o que se publica nas redes pessoais, evitar recomendações baseadas apenas em opinião ou experiência isolada e reconhecer que cada vídeo ou post pode ser interpretado como prescrição por milhares de pessoas desconhecidas.
Já para gestores e instituições, o desafio é estruturar núcleos de comunicação especializados, investir em literacia em saúde e aproximar linguagem científica e jornalística sem sacrificar precisão, nem ceder a simplificações que abrem espaço para interpretações distorcidas.
Assumir o rigor científico como linha editorial significa, em última instância, recolocar os fatos no centro do debate público em saúde – mesmo quando isso implica desacelerar a pressa da viralização. Em um ambiente em que mentiras circulam dez vezes mais rápido que a verdade, comunicar bem passa a ser também comunicar devagar o suficiente para checar, ouvir contraditórios qualificados e construir narrativas sustentadas não em frases de efeito, mas em evidências robustas.
Entretanto, enfrentamos um paradoxo prático: nas redes sociais, conteúdos excessivamente técnicos ou acadêmicos raramente geram engajamento, perdendo espaço para o sensacionalismo. De nada adianta a precisão científica se a mensagem não alcança o público.
Não se trata de transformar redações, assessorias e perfis profissionais em extensões frias de comitês técnicos, mas de reconhecer que criatividade e rigor podem coexistir. O texto pode ser sensível, envolvente e acessível sem abandonar o método científico como bússola. Em tempos em que a desinformação já figura entre as maiores ameaças globais, cada peça de comunicação em saúde – da nota à imprensa ao story de 15 segundos – torna-se também um ato de responsabilidade coletiva pela preservação da confiança pública na medicina e na ciência.