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Cultura AI-driven é o verdadeiro diferencial da liderança na era da IA

Foto: divulgação
Foto: divulgação

A inteligência artificial não é um produto que se compra ou um software que se instala, mas sim uma nova forma de pensar. Muitas organizações cometem o erro de enxergar a IA apenas como uma ferramenta de automação, mas, na Mirante Tecnologia, entendemos que uma cultura organizacional orientada por IA exige uma mudança de mentalidade onde dados, automação e a amplificação da capacidade humana são os elementos centrais de qualquer decisão. 

Uma cultura AI-driven se sustenta em três pilares fundamentais. O primeiro é a curiosidade técnica institucionalizada: todos precisam entender minimamente o que a tecnologia pode e não pode fazer. O segundo é a experimentação rigorosa, que substitui o achismo por testes de hipóteses constantes. E o terceiro é a colaboração humano-máquina, desenhada para que a tecnologia amplifique nossa inteligência em vez de apenas substituir tarefas. No fundo, é uma cultura de profundidade, onde não aceitamos o superficial e usamos a IA para investigar as premissas por trás de cada resultado. 

Nosso maior aprendizado nessa jornada foi perceber que a IA é um espelho da maturidade dos nossos processos. Se o processo é confuso, ela apenas escala a confusão. A tecnologia funciona melhor quando entendemos profundamente o problema que estamos resolvendo. 

Um exemplo prático disso é o nosso trabalho de modernização de sistemas legados, como a conversão de COBOL (COmmon Business-Oriented Language) para Java. A IA é extraordinária para identificar padrões e acelerar a análise, mas o conhecimento de negócio humano continua sendo insubstituível para validar se a solução faz sentido no contexto real do cliente. A tecnologia eleva a barra, mas exige um mergulho ainda mais profundo na solução. 

O papel da liderança

Nesse cenário, a liderança precisa desenvolver o que chamo de bilinguismo tecnológico: entender o suficiente de IA para fazer as perguntas corretas e discutir alternativas com profundidade, sem necessariamente ser um especialista técnico. Agora, o papel do líder mudou e ele deixou de ser quem detém as respostas para ser o curador de contextos. 

O grande desafio é resistir à tentação de terceirizar o julgamento para os algoritmos. A IA nos entrega padrões e probabilidades, mas a decisão estratégica, que envolve ética e impacto em pessoas, continua sendo uma responsabilidade humana. 

Para equilibrar velocidade e qualidade, adotamos uma taxonomia de decisões. Aquelas que são reversíveis e de baixo impacto podem ser aceleradas pela IA com mínima intervenção, já as decisões estratégicas passam por um refinamento rigoroso. 

A IA nos dá velocidade, mas é a pessoa que garante a qualidade na validação.O equilíbrio acontece quando usamos a agilidade da máquina para liberar o tempo do especialista para o que realmente importa. 

Essa busca por profundidade também guia nossa visão sobre ética e transparência. Tenho uma necessidade pessoal de entender como as engrenagens funcionam, por isso fujo de soluções que operam como caixas pretas. Para nós, transparência significa soberania sobre o conhecimento. Se não conseguimos explicar por que a IA tomou uma decisão ou como ela chegou a um resultado, não a utilizamos em processos críticos. A ética está em garantir que a tecnologia suporte o julgamento humano, mantendo sempre o controle nas nossas mãos. 

Naturalmente, essa mudança gera resistência. O medo mais comum não é apenas o de ser substituído, mas o de perder a autonomia e a expertise construída ao longo de anos. Superamos isso mudando o posicionamento do time, com as equipes deixando de serem executoras de tarefas repetitivas para se tornarem curadoras e validadoras da inteligência gerada pela máquina. Oferecer segurança psicológica para a experimentação é vital para que o colaborador sinta que a evolução tecnológica é, na verdade, uma nova superpotência ao seu dispor. 

Para os líderes que desejam iniciar essa transformação, meu conselho é simples: suje as mãos. Não lidere apenas por relatórios. Comece por um problema real e bem delimitado, entenda o impacto antes de propor soluções e desenvolva profundidade antes de buscar escala. Seja paciente com as pessoas, pois a mudança cultural leva tempo, mas seja impaciente com processos burocráticos que perderam o sentido. 

A qualidade da sua empresa na era da IA será, no final das contas, proporcional à qualidade das perguntas que sua liderança for capaz de fazer.

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CEO da Mirante Tecnologia e mestre em inteligência artificial há mais de 20 anos

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