Por Ricardo Cappra, pesquisador de cultura analítica, autor e empreendedor da área de tecnologia da informação, autor do livro “Híbridos: o futuro do trabalho entre humanos e máquinas”.
A adoção de dados e inteligência artificial nas organizações entrou em uma nova era. Após anos marcados por promessas de eficiência, cresce agora entre líderes a percepção de que a tecnologia, por si só, não resolve dilemas organizacionais. Em 2026, o debate se concentra menos nas ferramentas e mais na atenção à maneira como as decisões são mediadas, distribuídas e assumidas nas empresas.
Nesse contexto, ganha força a necessidade de um diálogo contínuo entre executivos, conselhos e equipes que já atuam em ambientes decisórios híbridos, com uma relação de interdependência humano-máquina.
A seguir, confira cinco movimentos que ajudam a compreender como dados e IA estão, na prática, redesenhando o mercado de trabalho:
- Da adoção acelerada à avaliação crítica
A pergunta “como acelerar a adoção de IA?” foi substituída por “o que realmente está funcionando e o que apenas tornou tudo mais complexo?”. Cresceu a consciência de que sistemas analíticos não devem ser avaliados somente por habilidades técnicas ou métricas funcionais, como acurácia ou performance computacional, mas por seu impacto organizacional. As conversas passam a girar em torno do valor dos dados, qualidade da informação, aperfeiçoamento contínuo das decisões, clareza de responsabilidades, redução de vieses e a coerência entre dados, estratégia e cultura.
- Lideranças sob decisões híbridas
Outro movimento é o desconforto crescente das lideranças diante de decisões mediadas por sistemas. Modelos preditivos, recomendações automatizadas e agentes artificiais não são mais apenas suporte operacional, mas influenciam diretamente decisões estratégicas. Isso redefine o papel da liderança, uma posição que já não é a fonte exclusiva da decisão. Em 2026, o desafio de liderar é sustentar critérios, interpretar recomendações e assumir responsabilidade por escolhas híbridas.
- O trabalho intelectual em disputa
Entre os profissionais, o impacto é ainda mais ambíguo. O que projetamos para 2026 não é a substituição do trabalho intelectual, mas uma disputa silenciosa entre ampliação e empobrecimento cognitivo. Quem desenvolve pensamento crítico, capacidade interpretativa e consciência dos limites da tecnologia tende a ampliar a própria autonomia. Aqueles que apenas consomem respostas prontas geradas por IA tendem a perder autoria e profundidade.
- O esgotamento do data-driven simplificado
As próprias lideranças começam a reconhecer os limites da narrativa clássica do data-driven. Dados não são neutros. Algoritmos não são objetivos. E decisões nunca são puramente racionais. Em 2026, organizações mais maduras vão abandonar a busca por verdades automáticas e começar a construir critérios explícitos de interpretação. Em vez de tratados como respostas finais, dados serão compreendidos como elementos de mediação entre fatos, valores, narrativas e interesses.
- Cultura Analítica como infraestrutura invisível
O movimento mais profundo é quando a Cultura Analítica deixa de ser um projeto formal e passa a orientar o cotidiano. Ela aparece nas perguntas feitas antes de uma análise, nos limites da automação, na revisão contínua de modelos e na decisão de interromper sistemas que já não fazem sentido. As organizações mais maduras não são as mais automatizadas, mas as mais reflexivas.