Por Glauco Soares, diretor de negócios da RPE.
Por muito tempo, os meios de pagamento ocuparam um papel quase invisível nas grandes discussões do varejo global. Eram tratados como infraestrutura, como algo que simplesmente precisava funcionar bem. Mas essa lógica mudou. Na NRF deste ano, em Nova York, ficou evidente que pagamentos, crédito e serviços financeiros deixaram de ser coadjuvantes para se tornarem parte central da estratégia de crescimento do varejo, algo que, segundo minha experiência de quase dez anos acompanhando o evento, nunca esteve tão explícito.
A própria temática da NRF, “Next Now”, reforçou essa virada pragmática. Depois de anos de discursos sobre inovação exponencial e tecnologias emergentes, o foco agora está na execução, na eficiência e na rentabilidade. E, nesse contexto, as soluções de crédito e pagamento do setor ganharam espaço justamente por sua capacidade concreta de gerar resultado, fortalecer o relacionamento com o cliente e ampliar as fontes de receita.
Um dos pontos mais marcantes desta edição foi perceber como a agenda de serviços financeiros passou a caminhar lado a lado com outras frentes estratégicas, como logística e marketplaces. Varejistas que antes se limitavam a vender produtos, hoje entendem que precisam ir além. Não basta comercializar cerveja, feijão ou itens básicos; é necessário construir um ecossistema capaz de rentabilizar a base de clientes ao longo do tempo.
Nos Estados Unidos, esse movimento ganhou força com a consolidação do BNPL e com grandes players como Amazon, Walmart, Apple e Best Buy oferecendo produtos de concessão de crédito diretamente aos consumidores. Por isso, essas iniciativas se tornaram uma realidade cada vez mais presente na rotina do varejo norte-americano. Curiosamente, trata-se de uma agenda que o Brasil conhece bem. O país tem uma longa tradição em facilitar o processo de compra, desde a oferta de crediário até os cartões de loja, e desenvolveu uma expertise valiosa na gestão desse relacionamento financeiro com o cliente.
A NRF também evidenciou um cenário macroeconômico desafiador, especialmente para a média e baixa renda, pressionadas pelo aumento expressivo dos preços de itens básicos e serviços. Nesse contexto, o crédito passa a ser não apenas um impulsionador de vendas, mas um instrumento de acesso ao consumo e de fidelização. Ter um meio de pagamento próprio, seja um cartão de loja, um BNPL ou outras modalidades, deixou de ser diferencial e passou a ser uma questão estratégica para sustentar o negócio.
O que ficou claro é que o varejo do futuro e, em muitos casos, do presente só funciona como ecossistema. Um ecossistema que integra produto, experiência, dados, logística e serviços financeiros de forma fluida, tanto no ambiente físico quanto no digital. A loja deixa de ser apenas um ponto de venda e se transforma em um hub de serviços, capaz de construir relações mais profundas e duradouras com o consumidor.
A NRF deste ano foi um choque de realidade. Menos espaço para utopias, mais foco em ideias aplicáveis, escaláveis e orientadas a resultado. E, nesse novo cenário, os meios de pagamento finalmente assumem o papel que sempre tiveram potencial para ocupar: o de motor estratégico do varejo.