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Sem disciplina, grandes patrimônios não atravessam gerações

Foto: divulgação.
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Por Daniel Mazza, sócio-fundador da MZM Wealth.

A preservação de patrimônios relevantes raramente é fruto de decisões brilhantes isoladas ou de apostas bem-sucedidas em momentos específicos do mercado.

Ao contrário do imaginário comum, famílias que conseguem atravessar gerações mantendo e ampliando seu patrimônio constroem resultados a partir de processos consistentes, regras claras e uma visão de longo prazo.

O diferencial não está apenas na escolha de ativos e na própria forma como o patrimônio é concebido e administrado ao longo do tempo.

O primeiro ponto de distinção está justamente nessa mentalidade. Famílias patrimonialmente bem-sucedidas não enxergam seus recursos como uma simples carteira de investimentos, e sim como um projeto contínuo.

Cada decisão é tomada considerando sua capacidade de resistir a crises econômicas, mudanças regulatórias e transformações internas da própria família. Isso implica aceitar, em muitos momentos, retornos mais moderados em troca de previsibilidade, resiliência e preservação de capital.

Essa visão contribui para neutralizar um dos principais inimigos da gestão patrimonial: a tomada de decisões impulsivas. Ao priorizar objetivos estruturais em detrimento de resultados imediatos, essas famílias reduzem a exposição aos ciclos de euforia e pânico que frequentemente capturam investidores orientados pelo curto prazo.

O sucesso deixa de ser aferido pela superação pontual do mercado e passa a ser medido pela capacidade de preservar o patrimônio de forma íntegra, funcional e sustentável ao longo do tempo.

Famílias com patrimônio relevante estabelecem, desde cedo, estruturas claras sobre quem decide, como decide e quais são os limites de risco aceitáveis.

Essa organização cria um sistema de proteção justamente nos momentos mais críticos, quando emoções, pressões externas ou conflitos internos podem comprometer decisões racionais. A governança funciona como um amortecedor contra erros que costumam custar caro no longo prazo.

Segundo a Deloitte, todas as empresas no mundo geram um faturamento estimado de US$ 109 trilhões, dos quais as empresas familiares respondem por cerca de 19%, ou US$ 21 trilhões, um avanço significativo em relação aos US$ 16 trilhões registrados em 2020.

As projeções indicam que a receita das empresas familiares deve alcançar US$ 29 trilhões até 2030, o que representa um crescimento de 84% no período, bem acima da expansão esperada das empresas não familiares, estimada em 59%.

A diversificação também assume um papel mais sofisticado e diferentemente da ideia de acumular produtos financeiros, essas famílias constroem portfólios a partir de critérios como correlação entre ativos, exposição geográfica e múltiplas fontes de retorno.

O objetivo não é maximizar ganhos em cenários favoráveis, mas reduzir vulnerabilidades e proteger o patrimônio em ambientes adversos. Diversificar, nesse contexto, é uma estratégia de sobrevivência e continuidade.

Outro diferencial importante é a separação rigorosa entre patrimônio, negócios e consumo. Capital destinado a investimentos, recursos alocados em empresas operacionais e valores voltados ao padrão de vida não se misturam.

Essa distinção traz clareza sobre limites de risco, evita que decisões emocionais contaminem a estratégia patrimonial e contribui para uma gestão mais disciplinada e sustentável.

Por fim, famílias com patrimônio relevante tratam a sucessão como um tema estratégico, e não como um problema distante. A antecipação desse processo reduz riscos jurídicos, financeiros e emocionais, além de mitigar conflitos que figuram entre as principais causas de destruição patrimonial.

Somam-se a isso a adoção de modelos independentes de gestão patrimonial, livres de conflitos comerciais, e a busca por maior alinhamento entre estratégia, risco e objetivos familiares. O que, em última instância, diferencia essas famílias não são investimentos exóticos, e sim governança, disciplina e uma visão clara de longo prazo.

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