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O sequestro da parentalidade: o que o caso do cão orelha revela sobre a educação algorítmica

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Foto: reprodução redes sociais
Foto: reprodução redes sociais

O Brasil iniciou o ano de 2026 ainda sob o impacto de uma notícia brutal vinda de Santa Catarina: o assassinato de um cão, o Orelha, cometido por adolescentes com uma crueldade que indignou milheres de brasileiros.

Diante de tamanha violência, a reação imediata da sociedade é a busca por punição ou o diagnóstico de uma psicopatia isolada.

No entanto, como observadores do comportamento humano na era digital, precisamos investigar o que está sendo cultivado no vazio do silêncio doméstico.

A crueldade e a ausência de empatia não são traços espontâneos, elas são, muitas vezes, o subproduto de um ambiente onde a tecnologia sequestrou a presença dos pais e se tornou a única bússola ética disponível para os jovens.

Esses jovens não aprenderam tais crueldades na escola, muito menos em cursos de extensão ou através de seus pais, eles aprenderam nas telinhas.

Estamos vivenciando o ápice da “parentalidade distraída”. Enquanto adultos mergulham em fluxos ininterruptos de dopamina digital, verificando notificações compulsivamente sob o pretexto da produtividade ou do lazer, ocorre uma transferência invisível de autoridade.

A tela deixou de ser uma ferramenta de entretenimento para se tornar a educadora primária. O problema central não é apenas o que as crianças estão vendo, mas quem elas não estão vendo.

No momento em que o olhar dos pais está capturado pelo brilho do smartphone, rompe-se o espelhamento emocional necessário para o desenvolvimento da empatia.

Sem o “olho no olho”, o outro, seja ele um animal ou seu vizinho, deixa de ser um ser vivo e passa a ser percebido apenas como um objeto de interação em um jogo de gratificação instantânea.

Deixar um adolescente sozinho diante de uma tela sem mediação equivale a abandoná-lo em uma metrópole desconhecida sob a tutela de algoritmos que não possuem moralidade, apenas métricas de engajamento, métricas nas quais já discutimos aqui em outros artigos.

O digital opera em uma lógica de dessensibilização, onde o choque e a violência são moedas valiosas para reter a atenção. Quando essa dinâmica se torna a principal fonte de estímulo, o mundo real passa a parecer monótono, e a busca por reações extremas migra da tela para a vida física.

O que vimos em Santa Catarina é o sintoma terminal de uma geração que está sendo formada por sistemas de recompensa que privilegiam a frieza e o espetáculo do horror, enquanto os responsáveis diretos pela formação de seu caráter estavam, ironicamente, distraídos pela próxima notificação.

Precisamos tratar a atenção como o recurso mais escasso e valioso da economia moderna. A “pobreza de presença” dentro das casas brasileiras está gerando uma lacuna educacional que nenhuma escola ou política pública poderá preencher sozinha. Precisamos encarar a realidade de que a tela sequestrou os pais da função de educar.

Ao delegar o tempo de desenvolvimento de um jovem a uma inteligência artificial ou a redes sociais desenhadas para o vício, ou mesmo aos jogos, como temos acompanhado o caso do ROBLOX, os pais não estão apenas ganhando alguns minutos de paz, eles estão permitindo a formatação de mentes que podem se tornar funcionalmente capazes, mas emocionalmente perigosas. 

A tragédia do cão Orelha deve servir como um ponto de inflexão urgente. Não se trata apenas de monitorar o histórico de navegação dos filhos, mas de retomar o território da presença real. A tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas nunca poderá substituir o vínculo humano como o principal freio inibitório da violência.

O desafio para as famílias e para a sociedade em 2026 é claro: ou resgatamos nossa atenção das mãos do mercado digital para reinvesti-la na formação ética das próximas gerações, ou continuaremos a assistir, atônitos, à produção em série de indivíduos mentalmente e emocionalmente  doentes.

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empreendedor, CEO da EquilibriON e especialista em bem-estar digital.

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