Pesquisar

Uma ideia genial, e ao mesmo tempo muito básica, para startups

Foto: divulgação.
Foto: divulgação.

Por Carlos Perobelli, CEO da Nexmuv e idealizador do theGarage.

A construção de startups ainda enfrenta um obstáculo cultural relevante no Brasil: a resistência a processos. Existe a percepção de que uma boa ideia, combinada a um founder competente, é suficiente para gerar resultados. Na prática, essa lógica raramente se sustenta.

Ideias só se convertem em valor quando são acompanhadas por métodos claros, rotinas consistentes e decisões estruturadas. Processos não substituem criatividade, mas são o que permite que ela seja executada de forma contínua e escalável.

Os números do ecossistema brasileiro reforçam a importância desse cuidado. Entre 2010 e 2023, segundo levantamento do Distrito, foram criadas 36.435 startups no país. Desse total, 18.423 deixaram de operar, o equivalente a 50,6%.

Não se trata apenas de falta de mercado ou de produto, mas, em muitos casos, de ausência de disciplina na forma de planejar, acompanhar e decidir. Crescimento exige tempo, cadência e método e não pressa.

No modelo de startup studio, que internaliza a criação e o desenvolvimento de várias startups simultaneamente, os processos são desenhados justamente para garantir uma experiência replicável a cada nova empresa criada. Não importa se o time muda, cresce ou se renova: a base precisa ser sólida.

Por isso, desde o início, é necessário estruturar  rotinas claras de acompanhamento, decisão e documentação.

A rotina começa com reuniões dedicadas a cada projeto, com foco na revisão de prioridades. Esse encontro estabelece clareza sobre o que deve ser atacado primeiro, considerando o estágio do produto, recursos disponíveis e objetivos de curto prazo. A previsibilidade dessa dinâmica reduz retrabalho e evita dispersão de esforços ao longo da semana.

No dia a dia das operações, é necessário trabalhar com um conjunto limitado de ferramentas essenciais. Menos ferramentas significam menos ruído, mais foco e adoção real pelos times. Processos só funcionam quando são simples o suficiente para serem seguidos e robustos o bastante para orientar decisões.

Outro pilar relevante é a documentação. Como as equipes evoluem constantemente, torna-se fundamental que ideias, decisões e processos sejam registrados. Existe, inclusive, uma prática interna dos startup studios baseada na criação de documentações curtas para cada etapa do planejamento.

Essa base de conhecimento, ainda que não tenha um nome formal, funciona como um repositório estratégico, reunindo aprendizados acumulados sobre como estruturar, lançar e escalar startups. Trata-se de um ativo intangível que preserva conhecimento e acelera novos ciclos de criação.

Esse cuidado com processos e gestão do conhecimento não é apenas uma questão de organização, mas de eficiência. Uma pesquisa da ZIPDO, empresa internacional de gestão de produtividade, mostrou que 52% das empresas que integram a gestão do conhecimento aos seus processos aumentam a eficiência operacional.

Em um cenário em que apenas 2 em cada 5 startups são lucrativas e 1 em cada 3 ainda opera no prejuízo, segundo dados da Embroker, ignorar esse tipo de disciplina não é uma opção.

Inovar não é apenas criar algo novo, mas transformar hipóteses em decisões baseadas em dados, testar caminhos com método e aprender rápido com os erros. Processos não engessam a criatividade, eles dão sustentação para que ela se transforme em negócios consistentes.

No fim, construir empresas sólidas é menos sobre ter grandes ideias e mais sobre criar sistemas que permitam executá-las bem, repetidas vezes.

Processos, quando bem desenhados, deixam de ser apenas uma ferramenta de controle e passam a atuar como um fator de escala. Eles permitem que decisões complexas sejam tomadas com mais rapidez, que os aprendizados se acumulem ao longo do tempo e que a criação de novas empresas não dependa exclusivamente de pessoas específicas.

Esse tipo de estrutura cria previsibilidade em um ambiente naturalmente incerto e aumenta a capacidade de repetir acertos, mesmo em cenários de alta complexidade e mudança constante.

Compartilhe

Leia também