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Como mulheres podem começar o ano profissional sem culpa e sem burnout

Foto: divulgação
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Por Thaís Roque, estrategista  de carreiras, bacharel em administração e especialista em Liderança e Capital Humano pela NYU (New York University).

Se você é mulher é bem possível que tenha entrado em 2026 já cansada. Mulheres tentam equilibrar carreira, família, expectativas externas e o peso silencioso de dar conta de tudo. Em vez de simbolizarem renovação, as metas de janeiro frequentemente se transformam em mais uma fonte de cobrança.

O início do ano carrega uma energia coletiva de mudança que, à primeira vista, parece positiva. Mas essa promessa vem acompanhada de um ideal quase inalcançável: corpo renovado, carreira organizada, produtividade em alta e vida pessoal equilibrada — tudo ao mesmo tempo. Esse modelo ignora a realidade emocional e os condicionamentos estruturais que atravessam a trajetória feminina.

No meu livro Doce Jornada, falo sobre como mulheres vivem com a sensação constante de estar atrasadas na própria vida, mesmo quando estão objetivamente indo bem. Fomos socializadas para cuidar, nos adaptar e performar excelência, quase sempre sem espaço legítimo para pausa, dúvida ou incerteza. O problema é que o novo ano raramente pergunta onde você está; ele costuma perguntar por que você ainda não chegou.

Somado a isso, o começo do ano vem depois de um dezembro emocionalmente carregado. Muitas mulheres sustentam relações, famílias e expectativas alheias. Até o corpo entra no calendário: estar “no shape” para o verão vira mais uma meta, enquanto o sistema nervoso não acompanha essa aceleração. Quando a motivação não aparece, surge a culpa. E tentar encenar um recomeço que ainda não foi emocionalmente digerido se torna exaustivo.

Mas é possível romper esse ciclo sem abrir mão da ambição profissional. O primeiro passo é ressignificar o que entendemos por ambição. Ela não pode continuar sendo sinônimo de aceleração permanente ou de performance contínua. Ao longo dos anos, estudando trajetórias para o podcast De Carona na Carreira, ficou claro para mim que muitas mulheres altamente ambiciosas adoecem não por quererem demais, mas por quererem sem método, sem narrativa e sem respeito aos próprios ciclos.

Organizar a ambição no tempo não significa desacelerar sonhos, e sim estruturá-los. Em vez de se perguntar “o que eu preciso conquistar este ano?”, uma pergunta mais estratégica é: “que tipo de rotina sustenta a mulher que eu quero ser?”. Quando a ambição passa a ser guiada por coerência interna, e não por comparação externa, ela deixa de ser exaustiva e se torna sustentável.

A mulher continua querendo crescer, ganhar dinheiro e ocupar espaços, mas não às custas da própria saúde física, mental ou identidade. Uma ambição madura aceita processos, recalcula rotas e entende que não existe carreira sólida construída apenas na força.

No plano individual, uma das práticas mais transformadoras é trocar listas genéricas de metas por critérios claros de decisão. Em vez de afirmar “quero crescer”, vale perguntar: “o que eu não negocio mais na minha rotina?”, “que tipo de trabalho me adoece mesmo quando traz status?”, “quais habilidades quero usar mais este ano e quais posso exigir menos de mim?”. Defendo no meu livro ‘De Carona na Carreira’ que o planejamento profissional começa pelo autoconhecimento aplicado — não pela agenda. Quando uma mulher entende seus valores, limites reais e ciclos de energia, passa a planejar com clareza, e não com culpa.

Já no nível organizacional, é urgente que as empresas parem de romantizar sobrecarga como sinônimo de comprometimento. Planejamentos anuais mais saudáveis exigem metas realistas, menos urgências artificiais, lideranças preparadas para conversas de alinhamento, e não apenas de cobrança, e uma cultura que reconheça que constância vale mais do que picos momentâneos de performance.

Mulheres não precisam de menos ambição. Precisam de ambientes internos e externos que não transformem cada recomeço em uma prova de resistência. Planejar um ano com menos autocobrança é sinal de maturidade profissional.

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