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A era da desfuncionalização: por que trabalhamos tanto e entregamos tão pouco?

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Foto: Guilherme Pedrosa/Pexels
Foto: Guilherme Pedrosa/Pexels

Nas últimas décadas, o mundo corporativo foi seduzido por uma promessa perigosa: a de que a onipresença digital nos tornaria super-humanos. No entanto, o que observamos hoje nos escritórios e nas telas de home office é o exato oposto. Estamos diante de uma massa de profissionais “desfuncionalizados”.

O termo, que utilizamos na EquilibriON para descrever a perda das capacidades cognitivas e operacionais básicas, define o trabalhador que, embora esteja conectado doze horas por dia, perdeu a habilidade de realizar uma única tarefa complexa com profundidade. O exagero digital não apenas saturou nossas agendas; ele quebrou o mecanismo humano de execução.

A desfuncionalização é o resultado direto de um sistema nervoso que vive em estado de sequestro constante. Quando o trabalhador médio alterna entre janelas de navegador, aplicativos de mensagem e e-mails a cada seis minutos, ele não está trabalhando; ele está apenas reagindo. Essa reatividade crônica consome uma energia mental absurda, mas gera um resultado pífio. É o paradoxo da exaustão sem performance: as pessoas terminam o dia esgotadas, com a nítida e dolorosa sensação de que “não fizeram nada”, apesar de terem respondido centenas de notificações. O cérebro, bombardeado por estímulos, perde a capacidade de priorizar, de analisar criticamente e, acima de tudo, de focar.

Esse cenário transbordou o campo mental e tornou-se uma crise de saúde pública física e emocional. O corpo humano não foi projetado para sustentar os picos de cortisol gerados pela urgência artificial das notificações. O resultado é uma epidemia de doenças que vão além do Burnout. Vemos a ascensão de dores crônicas, distúrbios de sono e crises de ansiedade que são tratadas como problemas individuais, quando, na verdade, são sintomas de um ambiente de trabalho tecnologicamente tóxico. A desfuncionalização ocorre quando o colaborador já não consegue mais separar o estímulo da resposta, agindo de forma automática, como um engrenagem gasta de um sistema que exige velocidade, mas ignora a direção.

Empresas que ignoram esse fenômeno estão operando em prejuízo invisível. Não se trata apenas de “bem-estar”, mas de eficiência econômica e conformidade legal. As atualizações recentes da Norma Regulamentadora 01 (NR-01) já deixam claro: a gestão dos riscos psicossociais é agora uma obrigação. Ignorar a sobrecarga digital e a desfuncionalização dos colaboradores é, portanto, um risco jurídico e financeiro. Trabalhar demais nunca foi sinônimo de alta performance, e na era da economia da atenção, o excesso de “fazer” tornou-se o maior inimigo do “entregar”.

Precisamos, urgentemente, de um processo de refuncionalização. Isso exige coragem para redesenhar culturas organizacionais que premiam a disponibilidade em vez do resultado. A clareza só surge no espaço que o silêncio e o desligamento permitem. Enquanto continuarmos a medir o valor de um profissional pela rapidez com que ele responde a um chat, continuaremos a fabricar trabalhadores exaustos, doentes e profundamente ineficientes. O futuro da produtividade não está na próxima ferramenta tecnológica, mas na nossa capacidade de resgatar o que nos torna humanos: a atenção deliberada e a funcionalidade plena.

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empreendedor, CEO da EquilibriON e especialista em bem-estar digital.

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