Por Hen Harel, CEO da Ôguen e especialista em segurança eletrônica.
Durante décadas, a lógica da segurança em grandes eventos foi construída a partir de uma premissa que hoje já não se sustenta: a de que a ameaça se limita ao nível do solo. Grades, detectores de metal, revistas corporais e policiamento ostensivo moldaram a arquitetura da proteção coletiva e responderam bem a um determinado estágio tecnológico. Essa lógica, no entanto, tornou-se insuficiente no momento em que o risco ganhou altitude e passou a operar acima da linha de visão.
Nesse contexto, o recente anúncio do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, que liberou US$ 115 milhões para tecnologias antidrone, deve ser interpretado como algo muito além de uma decisão administrativa. Às vésperas da Copa do Mundo de 2026 e das celebrações dos 250 anos da independência americana, o investimento sinaliza uma mudança estrutural na forma como o Estado compreende a segurança de eventos de massa. Ignorar o espaço aéreo de baixa altitude deixou de ser apenas uma fragilidade operacional e passou a configurar negligência estratégica.
Quando esse aporte se soma aos US$ 250 milhões já direcionados pela Agência Federal de Gestão de Emergências aos estados-sede, o desenho de um novo paradigma fica evidente. A tecnologia antidrone deixa de ocupar um papel periférico, associada a soluções sofisticadas ou experimentais, e passa a integrar o núcleo da segurança essencial. Não se trata mais de diferencial entre cidades ou países, mas de um requisito mínimo para a manutenção da ordem pública em ambientes de grande concentração humana.
Essa mudança é consequência direta da popularização do espaço aéreo de baixa altitude, hoje acessível, barato e difícil de fiscalizar por meios tradicionais. Dados recentes da NFL indicam que, entre 2024 e 2025, mais de 2.800 incidentes com drones foram registrados nas imediações de estádios. No Brasil, o balanço parcial da COP30, em 2025, já apontava mais de 1.100 drones operando de forma irregular em áreas estratégicas. Os números não revelam apenas curiosidade tecnológica, mas evidenciam um vácuo de controle que precisa ser preenchido antes que se converta em tragédia.
A percepção de que drones comerciais representam riscos limitados ignora uma variável fundamental: a física básica. Um equipamento de dois quilos, ao cair de uma altura de cem metros sobre uma multidão, acumula energia suficiente para causar ferimentos graves ou mortes. Não é necessário qualquer intenção terrorista para que o perigo exista. Bastam imprudência, falha técnica ou desconhecimento das regras. A segurança contemporânea precisa ser capaz de lidar com riscos potenciais, e não apenas reagir a crimes consumados.
É justamente nesse ponto que a tecnologia antidrone demonstra seu valor mais relevante. Seu mérito central não está apenas na neutralização do objeto, mas na capacidade de antecipação. Sistemas de detecção permitem identificar a presença do drone antes que ele se torne visível ao público, evitando pânico coletivo, correria e reações em cadeia que, historicamente, causam mais danos do que o próprio incidente inicial.
Ao mesmo tempo, essas soluções alteram profundamente a lógica da resposta estatal. Em vez de focar exclusivamente no artefato, a tecnologia moderna rastreia o sinal até o operador, permitindo ações localizadas, proporcionais e precisas. Isso elimina a necessidade de interrupções abruptas, dispersão de multidões ou abordagens generalizadas que transformam eventos públicos em ambientes de tensão desnecessária.
Outro aspecto decisivo desse avanço está na substituição da força ostensiva pela inteligência eletrônica. Técnicas de interferência e bloqueio de sinal possibilitam pousos controlados, sem tiros, explosões ou demonstrações visíveis de poder. Trata-se de uma evolução silenciosa da segurança, menos perceptível ao público e justamente por isso mais eficaz na preservação da experiência coletiva.
O que se observa nos preparativos para a Copa do Mundo de 2026 extrapola o universo esportivo e funciona, na prática, como um laboratório de alta escala para a segurança urbana do futuro. Quando a secretária de Segurança Interna dos Estados Unidos, Kristi Noem, afirma que o país ingressa em uma nova era da superioridade aérea interna, o discurso não carrega exagero retórico. Ele reflete o reconhecimento institucional de que o controle do espaço aéreo baixo se tornará tão cotidiano quanto o controle de acessos físicos.
Esse investimento cria um legado que não se encerra nos estádios. A mesma tecnologia desenvolvida para proteger torcedores será aplicada na proteção de aeroportos, que em 2025 registraram prejuízos milionários na Europa e nos Estados Unidos devido a interrupções causadas por drones. Portos, refinarias, centros logísticos, fronteiras e grandes áreas urbanas passam a integrar um mesmo ecossistema de vigilância inteligente e preventiva.
Historicamente, grandes eventos sempre funcionaram como catalisadores de inovação em segurança. O que começa como exceção tende a se transformar em padrão operacional. Sob essa perspectiva, o bloqueio eletrônico de drones não representa restrição de liberdade, mas um mecanismo de sua preservação. Em um cenário no qual a tecnologia de consumo avança mais rápido do que a legislação e a cultura de risco, proteger o céu torna-se condição básica para manter o espaço público funcional e seguro.
A Copa do Mundo de 2026 será, inevitavelmente, a mais monitorada da história. Não por paranoia, mas por maturidade institucional. Em um mundo onde a ameaça já não anuncia sua chegada pelo chão, blindar o espaço aéreo deixou de ser escolha e passou a definir o novo padrão de ouro da segurança. E essa é exatamente a realidade que já começa a ser enfrentada em grandes eventos e infraestruturas críticas no Brasil com tecnologias já em operação no país.