Por Matheus Antonio Rodrigues, estrategista de negócios.
Importar aço no Brasil pode parecer um bom caminho para reduzir custos ou abastecer linhas de produção, mas, na prática, essa operação está longe de ser simples ou acessível para a maioria das empresas.
Além das barreiras tarifárias e burocráticas já conhecidas, os importadores enfrentam um contexto recente de regulamentações protecionistas, guerra por cotas e volatilidade de mercado que transformam esse processo em um desafio estratégico, financeiro e logístico de nível extremo.
Segundo dados divulgados pelo Instituto Aço Brasil, federação que reúne as principais siderúrgicas do país, as importações brasileiras de produtos siderúrgicos cresceram fortemente nos últimos anos e, em 2025, a média foi de 6,4 milhões de toneladas, um salto de cerca de 20,5% em relação ao ano anterior.
Porém, esse aumento resultou em pressão do mercado interno, implementação de cotas de importação e um escrutínio alfandegário muito mais severo.
O principal erro das empresas é subestimar o grau de planejamento necessário, já que importar aço no Brasil exige engenharia logística, inteligência tributária e leitura constante do cenário regulatório. Não é apenas uma operação de compra internacional, é uma esteira de altíssimo risco e custo.
Abaixo, destaco os erros operacionais mais comuns que comprometem processos milionários, e que começam ainda na fase de planejamento:
1. Desconhecimento do ambiente regulatório e inércia sistêmica
O mercado siderúrgico brasileiro opera sob rigorosos mecanismos de defesa comercial. Hoje, a gestão de Licenças de Importação (LIs) exige precisão cirúrgica.
Empresas que não possuem monitoramento para registrar documentações de madrugada no Siscomex, no exato momento da abertura, perdem suas cotas, travando a carga e destruindo a margem de lucro antes mesmo de o navio atracar;
2. Gestão cambial e tributária inadequada
A volatilidade do dólar é apenas a ponta do iceberg. O grande erro financeiro está na falta de estruturação de benefícios fiscais estaduais e na ausência de provisionamento exato para a nacionalização.
Uma carga bloqueada por falta de caixa para recolhimento de impostos ou eventual adicional de Marinha Mercante gera multas que engolem a rentabilidade da operação;
3. Fragilidade e amadorismo logístico
No comércio de aço, o porto não é local de armazenagem, é local de trânsito. O importador comum sofre com atrasos, parametrizações em “Canal Vermelho” e vistorias do MAPA, pagando fortuna em demurrage (sobreestadia).
O importador de alta performance manobra esse gargalo utilizando ferramentas como a DTA (Declaração de Trânsito Aduaneiro), transferindo inteligentemente milhares de toneladas entre recintos alfandegados estratégicos para otimizar custos e garantir a liberação expressa da carga;
4. Ausência de auditoria de qualidade e relacionamento internacional
Importar aço em larga escala exige uma auditoria implacável na origem. Falhas na validação de Certificados de Qualidade Metalúrgica (MTCs) ou submissão a agentes marítimos abusivos geram dores de cabeça incalculáveis no Brasil.
Ter relacionamento direto com a diretoria das usinas asiáticas não é um luxo, é a única forma de garantir compliance, resolver avarias (sinistros) de forma ágil e proteger o fluxo de caixa.
Mesmo com os desafios, importar aço é altamente estratégico. Quando a operação é orquestrada com profundo domínio técnico, inteligência aduaneira e visão de longo prazo, ela não apenas abastece o mercado, mas cria um fosso intransponível de vantagem competitiva contra a concorrência.