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O branding é infinito, pessoas não são: o desafio de liderar uma marca em tempos de IA

Crédito da imagem: acervo pessoal (autorretrato em instalação imersiva de Olafur Eliasson, Jakarta, 2026).
Crédito da imagem: acervo pessoal (autorretrato em instalação imersiva de Olafur Eliasson, Jakarta, 2026).

O branding é, por definição, um processo contínuo. A própria construção da palavra indica isso. Não se trata de um evento isolado nem de uma ação pontual, mas de um sistema permanente de decisões que, ao longo do tempo, constroem reputação, significado e valor econômico.

Em qualquer contexto, comunicar exige dois elementos fundamentais: um emissor e um receptor. Para que uma mensagem exista, alguém precisa formular intenção e alguém precisa interpretá-la. Com marcas não é diferente. Para que o branding aconteça, é necessário que exista clareza na emissão e coerência na recepção. A tecnologia pode ampliar canais, acelerar fluxos e automatizar processos, mas não elimina a responsabilidade humana de definir direção.

Em um cenário marcado por automação crescente, inteligência artificial e aceleração decisória, essa dinâmica ganha nova complexidade. A IA pode gerar conteúdos, estruturar dados e otimizar interações, mas o que define o sentido da comunicação continua sendo humano. Inclusive na relação com a própria tecnologia. Saber se comunicar com o mercado exige saber se comunicar com as ferramentas que ampliam essa comunicação.

Independentemente do porte da organização, da maturidade do negócio ou da estrutura envolvida, toda marca é sustentada por decisões humanas. Seja em uma empresa nascente, em um negócio em fase de expansão ou em uma instituição consolidada com centenas de colaboradores, a responsabilidade pela direção estratégica da marca recai sobre pessoas. E pessoas não são inesgotáveis.

Há um equívoco recorrente no mercado contemporâneo: confundir continuidade estratégica com presença ininterrupta.

Branding não é volume. É direção.

O diferencial de uma marca não nasce na frequência de exposição, mas na clareza da visão que a sustenta. Toda marca relevante começa no núcleo de quem a idealizou. É ali que se estabelece a intenção estratégica, que se define o problema a ser resolvido, o valor a ser entregue e a transformação que se pretende gerar. Quando essa visão é bem arquitetada, ela deixa de ser discurso e passa a organizar o sistema inteiro do negócio. Orienta cultura interna, direciona comunicação, influencia decisões de produto e estrutura a experiência oferecida ao mercado.

Edições recentes do Edelman Trust Barometer apontam que as empresas seguem sendo percebidas como as instituições mais confiáveis em diversos mercados globais, superando outras esferas institucionais tradicionais. Confiança, portanto, não é um ativo abstrato. É um fator decisivo de competitividade.

Da mesma forma, relatórios recentes do Global Marketing Trends, da Deloitte, reforçam que marcas orientadas por propósito e coerência estratégica apresentam maior capacidade de gerar lealdade, engajamento e crescimento sustentável. Não se trata de tendência estética, mas de arquitetura de valor. Clareza gera alinhamento. Alinhamento gera consistência. Consistência gera confiança. Confiança sustenta crescimento.

Quando observamos mercados altamente competitivos, esse padrão se confirma. No Sudeste Asiático, empresas como a Grab consolidaram sua expansão não apenas pela tecnologia, mas pela clareza do seu posicionamento como plataforma integrada de serviços em um ecossistema fragmentado. Na Europa, marcas como a Patagonia tornaram-se referência global pela coerência entre discurso e prática, transformando posicionamento em decisão operacional concreta. No Brasil, o Nubank construiu sua força a partir de uma proposta clara de simplificação e transparência no setor financeiro, organizando produto, linguagem e cultura interna sob a mesma narrativa.

Em todos esses casos, o que se observa não é intensidade permanente de exposição, mas consistência estratégica ao longo do tempo. São marcas orientadas por design (design-driven), não apenas no sentido estético, mas na forma como estruturam experiência, sistema e proposta de valor. O design, nesses contextos, funciona como instrumento de coerência e alinhamento estratégico, garantindo que cada ponto de contato reflita a mesma visão fundadora.

Isso significa investir em design como diferencial competitivo real. Desde a criação da identidade com personalidade única, tipografias próprias e tom de voz autêntico, até patentes exclusivas, curadoria de eventos alinhados à proposta de valor e experiências cuidadosamente desenhadas em aplicativos, newsletters e demais soluções. São escolhas que vão muito além da presença em redes sociais e que não se constroem apenas com ferramentas automatizadas. São decisões intencionais que agregam valor estrutural à marca e fortalecem sua singularidade no mercado.

Branding é infinito porque reputação é acumulativa. No entanto, a energia humana que sustenta decisões estratégicas não é infinita. Em um ambiente impulsionado por inteligência artificial, onde eficiência operacional pode ser amplificada por algoritmos e sistemas automatizados, o risco não está na falta de produtividade, mas na perda de direção.

Estudos recentes da McKinsey sobre transformação digital e adoção de inteligência artificial indicam que organizações que utilizam tecnologia para simplificar processos e reduzir complexidade operacional apresentam maior agilidade decisória e maior capacidade de inovação. A tecnologia, nesse contexto, não substitui a identidade da marca nem assume sua visão. Ela protege a energia estratégica de quem a sustenta.

Em tempos de IA, a eficiência se torna cada vez mais automatizável. O que permanece insubstituível é a capacidade humana de interpretar contexto, sustentar visão e decidir direção. Automatizar tarefas repetitivas, estruturar fluxos e organizar comunicação não significa ampliar artificialmente a produção, mas preservar o recurso mais escasso no cenário atual: capacidade estratégica qualificada.

O verdadeiro branding nasce no coração de quem idealizou a marca, mas só ganha força quando essa visão transcende o indivíduo e se torna proposta de valor coletiva, capaz de encantar, engajar e orientar decisões em toda a organização. Quando bem estruturada, essa visão move equipes de forma orgânica, gera pertencimento interno e atrai clientes que compartilham valores de maneira natural, não forçada. Valor compartilhado não se impõe. Se reconhece.

Em mercados cada vez mais automatizados, o diferencial competitivo está justamente no que não pode ser automatizado. Visão, sensibilidade cultural, leitura de contexto e capacidade de síntese são ativos humanos que estruturam marcas fortes. A tecnologia deve operar como infraestrutura que sustenta esse núcleo criativo, não como mecanismo que o substitui.

Branding infinito não significa esforço infinito. Significa construção consistente de sentido ao longo do tempo. Marcas verdadeiramente valiosas não são aquelas que operam sob exaustão, mas as que preservam sua capacidade de inovar e manter coerência estratégica em diferentes ciclos econômicos.

Marcas verdadeiramente fortes não nascem do esforço contínuo, mas da coerência contínua. E coerência só existe quando a visão é clara o suficiente para mover pessoas, estruturar decisões e atravessar ciclos. Em tempos de inteligência artificial, proteger essa visão não é resistência à tecnologia. É maturidade estratégica.

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designer, especialista em branding, com mais de 20 anos de experiência no universo das marcas.

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