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As quatro armadilhas cognitivas da IA

Foto: divulgação
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Muito se fala sobre os riscos da inteligência artificial no ambiente corporativo. Alucinações, dados inventados, respostas erradas. Tudo isso é real. Mas é o risco mais fácil de detectar e, portanto, o menos perigoso.

O que realmente me preocupa, como CEO de uma empresa em plena transformação para AI-first, são riscos de outra natureza. Riscos que não parecem riscos. Armadilhas que se disfarçam de produtividade, eficiência e sofisticação. Armadilhas cognitivas que afetam como pensamos, julgamos e decidimos quando mediados por IA. 

Ao longo do último ano, observando o impacto da IA na minha própria equipe, nos nossos clientes e no mercado como um todo, identifiquei quatro armadilhas estruturais que, juntas, formam um sistema de risco que poucas empresas estão preparadas para enfrentar. Não são falhas da tecnologia. São falhas humanas amplificadas pela tecnologia.

1. A narrativa convincente construída sobre premissas frágeis

A armadilha mais perigosa da IA não é o erro factual simples. É o erro com estrutura lógica perfeita. A IA consegue construir um raciocínio extremamente coerente com introdução clara, premissas organizadas, encadeamento lógico, conclusão convincente e linguagem confiante. O problema é que coerência narrativa não garante veracidade. A IA não raciocina no sentido humano. Ela prevê padrões linguísticos plausíveis. E plausibilidade não é verdade.

Vou dar um exemplo concreto. Imagine que alguém peça: “Analise o mercado de energia no Brasil e mostre por que empresas médias estão perdendo espaço para startups digitais.” Se a premissa já está enviesada, a IA não vai questioná-la. Ela vai criar explicações plausíveis, citar tendências reais mas desconectadas, construir uma narrativa de transformação digital inevitável e concluir que o modelo atual está obsoleto. Tudo parece estratégico. Mas talvez o mercado real esteja consolidando, não fragmentando. A decisão tomada com base nisso pode levar a empresa a investir milhões numa transformação que não resolve o problema central. A IA não validou a premissa. Ela apenas desenvolveu o raciocínio.

O mesmo acontece no jurídico. Peça para a IA explicar por que determinada cláusula gera risco trabalhista e ela vai estruturar uma tese inteira: base constitucional, interpretação doutrinária, analogias com jurisprudência, conclusão categórica. O texto soa como parecer técnico. Mas parte do argumento pode estar baseada em entendimento incorreto ou desatualizado. Se ninguém com domínio revisar, a empresa pode alterar contratos de forma desnecessária ou criar risco real.

Isso é cognitivamente perigoso porque o cérebro humano tende a confiar em estruturas bem organizadas. O perigo maior da IA não é a alucinação grosseira. É a argumentação sofisticada construída sobre base frágil. Ela cria um raciocínio bonito demais. E quanto mais bem escrito, mais difícil de questionar.

2. A delegação de critério

Se a primeira armadilha é a estrutura do pensamento convincente, a segunda é ainda mais silenciosa: transferir o critério de julgamento para a IA. Critério é o que eu valorizo, o que  considero evidência válida, o que diferencia nota 7 de nota 10, o que significa excelência dentro do meu contexto. Critério é decisão de valor. E decisão de valor não pode ser terceirizada.

Exemplo claro: avaliação de currículo. Se eu peço para a IA “Avalie este currículo e diga se a pessoa tem orientação a resultados”, ela vai responder. Mas com base em quê? Vai usar um padrão médio aprendido na internet: uso de números, verbos de ação, metas alcançadas, indicadores quantitativos. Mas talvez, para minha empresa, orientação a resultados signifique algo muito mais específico: capacidade de sustentar margem, consistência ao longo de três ciclos, entrega sob restrição orçamentária, capacidade de ajustar estratégia sob pressão. Se eu não defini isso antes, a IA aplica o critério dela — que é genérico. A IA não escolhe com base na minha cultura. Ela escolhe com base na média do mundo.

Quando empresas delegam critério sistematicamente, três coisas acontecem. Primeiro, padronização invisível de valores: a empresa começa a contratar, promover e decidir com base em critérios implícitos, não conscientes. Segundo, erosão da identidade organizacional: aos poucos, a empresa passa a refletir o padrão estatístico da IA, não sua cultura real. Terceiro, falsa objetividade: o output parece técnico “O candidato possui forte orientação a resultados” mas o critério nunca foi explicitado. Delegar critério é delegar julgamento. E julgamento é função executiva.

3. A validação constante e o viés de confirmação algorítmico

Existe uma característica estrutural dos modelos generativos que é pouco percebida: eles são treinados para serem cooperativos. Na prática, a IA tende a assumir que o usuário está em boa fé, parte do pressuposto de que há lógica na pergunta, procura expandir a ideia apresentada e raramente confronta de forma dura. O resultado? Uma sensação contínua de que você está no caminho certo.

Se um executivo usa IA para validar suas teses estratégicas e recebe sempre expansão da ideia, organização da narrativa e argumentos favoráveis, ele pode cair num viés perigoso: confundir coerência expandida com validação crítica. A IA não está necessariamente dizendo que você está certo. Ela está ajudando a desenvolver sua linha de pensamento. Mas a experiência subjetiva é de aprovação.

Eu chamo isso de ilusão de robustez intelectual assistida. Você apresenta uma tese. A IA organiza, aprofunda, refina, amplia. E isso dá a sensação de que a tese é forte. Mas talvez ela nunca tenha sido tensionada. Sem fricção intelectual, não há refinamento real. A IA pode se tornar uma câmara de eco sofisticada. E líderes já têm risco natural de isolamento cognitivo. A IA pode amplificar isso.

4. A aceleração do efeito Dunning-Kruger

O efeito Dunning-Kruger descreve um fenômeno clássico: quanto menos uma pessoa sabe sobre um tema, maior tende a ser sua confiança inicial. Isso acontece porque falta repertório para perceber a própria ignorância. Agora adicione IA a essa equação. A IA reduz drasticamente o atrito para produzir explicações sofisticadas. Surge algo novo: o Dunning-Kruger assistido por IA.

Exemplo prático: um executivo lê superficialmente sobre modelos multiagentes. Pergunta para a IA como aplicar na empresa. Recebe arquitetura, fluxo de decisão, casos de uso, benefícios estratégicos. Começa a falar como especialista, apresenta internamente, propõe projeto. Mas nunca implementou em produção, nunca enfrentou problemas de latência, nunca lidou com inconsistência de output, nunca mediu custo real de inferência. A confiança cresceu antes da competência.

Com profissionais mais jovens, isso é ainda mais sensível. Um analista júnior pode gerar relatórios complexos, usar terminologia sofisticada, produzir apresentações estratégicas, sem ter vivido ciclos reais de decisão. Ele parece mais sênior do que é. Mas quando surge uma situação ambígua, não tem repertório para decidir. A IA elevou a performance superficial, não a maturidade. 

A IA reduz o custo da opinião. Qualquer pessoa pode ter uma opinião sofisticada sobre qualquer tema. Mas opinião sofisticada não é domínio. Domínio envolve experiência, fracasso, contexto, julgamento sob pressão. A IA não entrega isso. Ela entrega linguagem. Se não houver maturidade, confundimos linguagem com conhecimento.

Como essas armadilhas se retroalimentam

Essas quatro armadilhas não são independentes. Elas formam um sistema. Narrativa convincente somada a validação constante aumenta confiança. Delegação de critério reduz responsabilidade intelectual. Confiança elevada com pouco domínio gera decisões arriscadas. A IA não apenas aumenta produtividade. Ela altera a dinâmica psicológica da tomada de decisão. O maior risco não é tecnológico. É cognitivo. 

Dito tudo isso…

A IA é, sem dúvida, a ferramenta mais poderosa que o ambiente corporativo recebeu nas últimas décadas. Ela acelera, organiza, amplia. Mas ferramentas poderosas exigem maturidade proporcional. E o que estou vendo, na prática, é uma adoção que corre mais rápido do que a maturidade para utilizá-la. 

As quatro armadilhas que descrevi — a narrativa sobre premissa frágil, a delegação de critério, o viés de confirmação algorítmico e a aceleração do Dunning-Kruger — não são falhas da IA. São falhas humanas que a IA potencializa. A tecnologia funciona exatamente como foi projetada. O problema é que fomos projetados para confiar em coerência, buscar validação, evitar fricção e superestimar o que sabemos. A IA explora cada uma dessas tendências.

A saída não é usar menos IA. É desenvolver mais maturidade intelectual para usá-la. Isso significa questionar premissas antes de aceitar respostas. Definir critérios antes de delegar julgamento. Buscar contraditório ativamente, não apenas expansão. E reconhecer que linguagem sofisticada não é o mesmo que conhecimento real.

As empresas que vão se destacar nos próximos anos não serão as que mais usam IA. Serão as que sabem pensar melhor com ela. Porque, no final, a IA não substitui liderança. Ela expõe a qualidade dela. 

E se há uma frase que resume tudo o que defendo neste artigo, é esta: a IA não é perigosa porque erra. Ela é perigosa porque erra com convicção. E confiança excessiva em sistemas probabilísticos, no ambiente corporativo, é um risco estratégico.

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CEO da Mirante Tecnologia e mestre em inteligência artificial há mais de 20 anos

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