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Saúde digital no Brasil: só 23% têm alta habilidade digital para usar IA

Foto: Fernando Mucci.
Foto: Fernando Mucci.

Por Sônia Maria Castral, executiva de TI e autora do estudo ISG Provider Lens.

A Saúde 5.0 se apresenta como a próxima fronteira do cuidado, um ecossistema em que tecnologia, humanização e inclusão caminham juntas para entregar uma experiência verdadeiramente centrada no paciente.

Mas, ao observar a realidade brasileira, é impossível ignorar que essa transição depende menos do brilho das novas tecnologias e mais da capacidade de incluir, capacitar e integrar.

No Brasil, equidade e inclusão digital são condições estruturais e não complementares. Mesmo com 74,9 milhões de domicílios conectados, segundo a pesquisa TIC Domicílios (2024), esse acesso se concentra entre as classes A, B e C.

Mesmo entre os conectados, o Indicador de Alfabetismo Funcional mostra que apenas 23% possuem altas habilidades digitais.

Isso evidencia lacunas importantes no letramento digital, o que dificulta tanto o acesso quanto a interpretação das informações de saúde e limita o uso pleno de ferramentas que, em tese, deveriam democratizar o cuidado.

Não adianta ter um sistema totalmente online, digital e automatizado se uma parte da população que depende dos sistemas públicos não têm acesso à internet.

Para que a Saúde 5.0 se consolide nos próximos cinco anos, será preciso enfrentar três desafios estruturais: infraestrutura adequada, capacitação contínua e inclusão digital real.

Isso inclui fortalecer a interoperabilidade da Rede Nacional de Dados em Saúde, regulamentar o uso ético da inteligência artificial e criar trilhas de formação para diferentes perfis populacionais.

Sem esses pilares, a modernização continuará concentrada nas capitais e no setor privado, reforçando desigualdades históricas. Parcerias público-privadas e portais de telemedicina apontam caminhos promissores, mas ainda carecem de escala nacional e maturidade operacional.

Se antes, na era da Saúde 4.0, o foco estava na integração de IoT, Big Data e IA para eficiência operacional, agora o objetivo é devolver humanidade ao atendimento, ampliando empatia, personalização e cuidado integral.

A Rede Nacional de Dados em Saúde, o Conecte SUS, a telemedicina, os wearables e a inteligência artificial já compõem essa base, mas o ponto decisivo continua sendo o mesmo: tecnologia é meio, não fim.

Em minhas análises deste ano para o estudo ISG Provider Lens® da TGT ISG, algo se tornou evidente. IA generativa, IoT e dispositivos vestíveis precisam ser tratados como componentes estratégicos, e não como modismos. A adoção imatura pode gerar riscos, investimentos inadequados, fragmentação, aumento de desigualdades, perdas de privacidade e desumanização.

Não é coincidência que, embora 92% das unidades básicas tenham acesso à internet, diversas regiões remotas ainda convivam com conectividade instável que inviabiliza soluções essenciais.

Apesar das barreiras, já colhemos resultados importantes. Chatbots aceleram o agendamento, algoritmos de triagem otimizam atendimentos emergenciais e dispositivos vestíveis ampliam o monitoramento de doenças crônicas.

Nos hospitais privados, 62,5% das instituições já utilizam IA em diagnósticos por imagem, segundo dados da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) e da Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs (ABSS), aumentando precisão e eficiência.

Ainda assim, tecnologias avançadas como IA preditiva e automação completa da alta hospitalar permanecem restritas a iniciativas isoladas, travadas por limitações de interoperabilidade e pela falta de capacitação.

A verdade é simples. O futuro da saúde no Brasil depende da capacidade de integrar dados, modernizar operações e usar tecnologia para ampliar eficiência e qualidade no atendimento. Mas depende, acima de tudo, da disposição de colocar cada paciente, no centro desse movimento.

A Saúde 5.0 não será alcançada apenas com inovação tecnológica. Ela surgirá do encontro entre inovação, inclusão e responsabilidade social. E esse é um compromisso que o Brasil não pode adiar.

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