Por Sônia Maria Castral, executiva de TI e autora do estudo ISG Provider Lens.
A Saúde 5.0 se apresenta como a próxima fronteira do cuidado, um ecossistema em que tecnologia, humanização e inclusão caminham juntas para entregar uma experiência verdadeiramente centrada no paciente.
Mas, ao observar a realidade brasileira, é impossível ignorar que essa transição depende menos do brilho das novas tecnologias e mais da capacidade de incluir, capacitar e integrar.
No Brasil, equidade e inclusão digital são condições estruturais e não complementares. Mesmo com 74,9 milhões de domicílios conectados, segundo a pesquisa TIC Domicílios (2024), esse acesso se concentra entre as classes A, B e C.
Mesmo entre os conectados, o Indicador de Alfabetismo Funcional mostra que apenas 23% possuem altas habilidades digitais.
Isso evidencia lacunas importantes no letramento digital, o que dificulta tanto o acesso quanto a interpretação das informações de saúde e limita o uso pleno de ferramentas que, em tese, deveriam democratizar o cuidado.
Não adianta ter um sistema totalmente online, digital e automatizado se uma parte da população que depende dos sistemas públicos não têm acesso à internet.
Para que a Saúde 5.0 se consolide nos próximos cinco anos, será preciso enfrentar três desafios estruturais: infraestrutura adequada, capacitação contínua e inclusão digital real.
Isso inclui fortalecer a interoperabilidade da Rede Nacional de Dados em Saúde, regulamentar o uso ético da inteligência artificial e criar trilhas de formação para diferentes perfis populacionais.
Sem esses pilares, a modernização continuará concentrada nas capitais e no setor privado, reforçando desigualdades históricas. Parcerias público-privadas e portais de telemedicina apontam caminhos promissores, mas ainda carecem de escala nacional e maturidade operacional.
Se antes, na era da Saúde 4.0, o foco estava na integração de IoT, Big Data e IA para eficiência operacional, agora o objetivo é devolver humanidade ao atendimento, ampliando empatia, personalização e cuidado integral.
A Rede Nacional de Dados em Saúde, o Conecte SUS, a telemedicina, os wearables e a inteligência artificial já compõem essa base, mas o ponto decisivo continua sendo o mesmo: tecnologia é meio, não fim.
Em minhas análises deste ano para o estudo ISG Provider Lens® da TGT ISG, algo se tornou evidente. IA generativa, IoT e dispositivos vestíveis precisam ser tratados como componentes estratégicos, e não como modismos. A adoção imatura pode gerar riscos, investimentos inadequados, fragmentação, aumento de desigualdades, perdas de privacidade e desumanização.
Não é coincidência que, embora 92% das unidades básicas tenham acesso à internet, diversas regiões remotas ainda convivam com conectividade instável que inviabiliza soluções essenciais.
Apesar das barreiras, já colhemos resultados importantes. Chatbots aceleram o agendamento, algoritmos de triagem otimizam atendimentos emergenciais e dispositivos vestíveis ampliam o monitoramento de doenças crônicas.
Nos hospitais privados, 62,5% das instituições já utilizam IA em diagnósticos por imagem, segundo dados da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) e da Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs (ABSS), aumentando precisão e eficiência.
Ainda assim, tecnologias avançadas como IA preditiva e automação completa da alta hospitalar permanecem restritas a iniciativas isoladas, travadas por limitações de interoperabilidade e pela falta de capacitação.
A verdade é simples. O futuro da saúde no Brasil depende da capacidade de integrar dados, modernizar operações e usar tecnologia para ampliar eficiência e qualidade no atendimento. Mas depende, acima de tudo, da disposição de colocar cada paciente, no centro desse movimento.
A Saúde 5.0 não será alcançada apenas com inovação tecnológica. Ela surgirá do encontro entre inovação, inclusão e responsabilidade social. E esse é um compromisso que o Brasil não pode adiar.