Por Thiago Artacho, CEO da Green Tech Solutions.
Estive na EuroShop 2026, em Düsseldorf, na Alemanha, acompanhando de perto o que há de mais avançado em tecnologia para o varejo global. Voltei com uma conclusão clara: o problema do varejo hoje não é falta de tecnologia, mas a ausência de conexão entre as soluções. Existe hoje um hiato entre a promessa da tecnologia e a realidade do piso de loja.
A inteligência artificial apareceu como um dos elementos centrais dessa transformação. Um exemplo marcante foi o uso de sensores inteligentes aplicados à padaria.
A tecnologia é capaz de identificar rupturas de produtos em tempo real e enviar notificações tanto para os colaboradores quanto para os consumidores informando quando determinado item voltou a ser produzido.
Na prática, isso significa menos perda de vendas e uma experiência de compra mais previsível. O consumidor passa a ter informação em tempo real e a loja ganha capacidade de agir rapidamente diante de rupturas ou mudanças na demanda.
Outro ponto forte observado na feira foi a evolução das prateleiras e sistemas de exposição inteligentes. Equipamentos apresentados ampliam a capacidade de armazenamento, organizam melhor a exposição dos produtos e garantem o conceito FIFO (First In, First Out), mantendo sempre à frente o item com vencimento mais próximo.
Soluções de abastecimento automático e sistemas de organização de gôndolas, aliás, como os apresentados na Alemanha, reforçam o compromisso com eficiência operacional, redução de perdas e melhor gestão de estoque.
O conceito apresentado pela companhia, chamado “Missão Possível”, demonstrou na prática como sistemas de pusher, displays modulares e organização inteligente podem melhorar a visibilidade do produto e facilitar a reposição.
Soluções apresentadas na Euroshop mostram como o digital signage está se consolidando como ferramenta estratégica. O conteúdo exibido pode ser atualizado constantemente, adaptando campanhas, promoções e mensagens de acordo com o momento da loja ou o perfil do público.
Além de melhorar a experiência do consumidor, esse modelo abre novas oportunidades de monetização do espaço físico, transformando cada metro quadrado da loja em um canal de mídia.
No campo da segurança e controle de acesso, soluções de smart access também chamaram atenção, com as novidades em fechaduras eletrônicas wireless, cadeados inteligentes para vitrines e displays, sensores integrados ao mobiliário e chaves eletrônicas usadas pelos vendedores.
Em vez de um único dispositivo isolado, a inovação está em conectar expositores, fechaduras inteligentes e checkout em um sistema centralizado. Isso permite que os colaboradores tenham acesso rápido aos produtos, enquanto os gestores mantêm controle total sobre permissões e fluxo de acesso.
Outro eixo importante da transformação é o uso crescente de analytics em tempo real. A coleta contínua de dados sobre comportamento de compra, reposição, fluxo de clientes e performance de produtos permite que a operação seja acompanhada minuto a minuto.
Essa capacidade de monitoramento abre espaço para decisões mais rápidas, ajustes de preço dinâmicos e melhorias operacionais constantes.
Um exemplo são as etiquetas eletrônicas com preço dinâmico, capazes de reduzir automaticamente valores próximo ao fechamento da loja, uma estratégia útil para categorias perecíveis, estimulando vendas de última hora e reduzindo desperdícios.
Durante muitos anos, o grande desafio do varejo foi acessar tecnologia. Hoje, o cenário mudou. As ferramentas estão disponíveis, cada vez mais sofisticadas e acessíveis. O verdadeiro desafio agora é conectar tudo e extrair valor real dessas ferramentas.
Quando os pontos não se ligam, o resultado simplesmente não aparece. Inteligência artificial, digital signage, analytics ou qualquer outra inovação são apenas partes de um sistema maior. Sozinhas, elas raramente transformam a operação.
Para que a tecnologia realmente aconteça dentro do varejo, a equação precisa estar completa, com ferramentas adequadas, pessoas capacitadas, processos claros e dados coletados e bem analisados. Sem esses elementos trabalhando juntos, mesmo a tecnologia mais avançada acaba se tornando subutilizada.
A EuroShop continua sendo um dos melhores lugares do mundo para entender para onde o varejo está indo. Mas ela também deixa um alerta importante para líderes e operadores do setor: antes de investir na próxima tendência, sua operação está preparada para absorver essa tecnologia?
No fim do dia, a tecnologia continua sendo apenas um meio para potencializar aquilo que sempre esteve no centro do varejo: pessoas atendendo pessoas com eficiência.