Existem aromas que atravessam o tempo, cruzam fronteiras e nos ajudam a resgatar memórias. Ao assistir à série ‘A Garota do Cigarro’, disponível na Netflix, me lembrei claramente do cheiro dos cigarros de cravo que circulavam pelo Brasil por volta dos anos 90. Foi através da série que comecei a perceber que a lembrança desse aroma, na verdade, o que eu realmente percebi, é que essa era a minha primeira recordação de um produto e de uma marca orginalmente da Indonésia, ou seja, a minha primeira conexão com a cultura desse país.
Vivendo na Indonésia há pouco mais de nove meses, comecei a perceber que o cigarro de cravo, aqui chamado de kretek, é um forte ícone da cultura local e um importante motor da economia do país. Curiosamente, o nome kretek, foi criado a partir do som do pequeno estalo que os pedaços de cravo fazem ao entrar em contato com o fogo. E ao acompanhar a narrativa da série torna-se impossível não enxergar o kretek como algo muito maior do que um simples cigarro aromatizado. Quem já sentiu esse cheiro em algum momento da vida ao ver a série vai conseguir recordá-lo em questão de segundos.
Deixo claro aqui, que a referência é apenas em relação à sensação olfativa (ou aroma) que qualquer produto possa nos transmitir, desvinculada a apologia ao hábito de fumar.
Isso acontece porque, de acordo com um estudo clássico publicado em 1999 por pesquisadores da Rockefeller University, nós, seres humanos, somos capazes de memorizar cerca de 35% dos aromas que sentimos ao longo da vida, enquanto retemos aproximadamente 5% do que vemos, 2% do que ouvimos e apenas 1% do que tocamos. Não por acaso, certos cheiros conseguem nos transportar instantaneamente para momentos específicos da nossa história. Para quem trabalha com marcas, isso não chega a ser exatamente uma surpresa, já que o branding raramente se constrói apenas pelo que vemos. Ele acontece através de um conjunto de experiências sensoriais que ajudam a criar reconhecimento, memória e conexão emocional.
Ao ativar todas essas lembranças, associado ao meu momento atual de vida, comecei a sentir aquele aroma com outro significado. Não mais como uma memória distante da minha juventude no Brasil, mas como parte viva da minha vida cotidiana aqui do outro lado do mundo. Percebi que o cheiro do kretek está presente pelas ruas de Jakarta. Aos poucos passei também a reconhecer a marca sob uma nova perspectiva, a começar pela forma como o nome Gudang Garam é pronunciado no sotaque bahasa indonésio. Diferente de como costumávamos pronunciar no Brasil, algo como “Gudã-Gárã”, aqui se diz “Gódángárán”, tudo junto e muito rápido. Passei a reparar mais no seu estilo gráfico tão característico, o lettering icônico e a embalagem especial que sugere algo um pouco mais sofisticado do que os cigarros comuns, uma vez que muitos desses cigarros ainda são produzidos manualmente por mulheres, revelando o cuidado artesanal presente nesse produto.
Essa percepção também me levou a outro aspecto da série que me chamou atenção. Não por acaso, o nome original da série é Gadis Kretek. Gadis, em bahasa indonésio, significa garota, e o nome remete tanto ao produto fictício que revolucionou a história desse tipo de cigarro na Indonésia quanto ao papel da protagonista, que sonha em ser reconhecida não apenas como mais uma trabalhadora da indústria do kretek, mas como uma criadora de aromas e sabores. Em um contexto histórico em que o papel das mulheres muitas vezes se limitava ao trabalho manual de enrolar cigarros, ela demonstra um talento notável para compreender a qualidade dos ingredientes, testar combinações e buscar algo melhor do que aquilo que já existia. Sua atenção aos detalhes e sua recusa em aceitar produtos inferiores revelam algo maior do que uma simples ambição profissional. Revelam a coragem de questionar padrões estabelecidos e de imaginar novos caminhos dentro de uma indústria tradicional. Algo que foi importante na época em que a série se passa e que continua sendo relevante até os dias de hoje para a elaboração de qualquer tipo de produto com excelência.
Histórias como essa ajudam a lembrar que, por trás de produtos aparentemente simples, existem pessoas, ideias e tradições que atravessam gerações. A indústria do kretek carrega não apenas tradição e impacto econômico, mas também narrativas de inovação e coragem para questionar padrões estabelecidos.
Quero trazer também um olhar curioso que acontece com muitos de nós quando passamos a viver fora do nosso país. Passamos a olhar para as marcas com outro tipo de sensibilidade. Existe uma sensação particular, acredito que especialmente para nós, brasileiros, que surge quando reconhecemos um produto típico do lugar onde estamos vivendo que, por algum motivo, já fez parte da nossa história em algum momento da época em que vivíamos no Brasil. Mesmo que não seja algo que consumimos, ele carrega uma memória afetiva. Nos tornamos capazes de criar uma espécie de carinho involuntário por uma marca, simplesmente porque ela se conecta a um momento da nossa vida.
O mesmo acontece no sentido inverso. Passamos a sentir um orgulho imediato quando encontramos um produto brasileiro em outro país. Ver alguém usando um par de Havaianas, por exemplo, desperta uma sensação instantânea de reconhecimento. É como se aquela marca carregasse um pequeno pedaço da nossa cultura. E por trás de muitos desses produtos que se tornam símbolos nacionais existem também histórias de pessoas que ousaram fazer algo diferente.
No fim, aquilo que para muitos pode parecer apenas uma lembrança revela, quando olhado de perto, uma história muito maior. Produtos, aromas e marcas também carregam cultura, identidade e memória coletiva. Às vezes tudo começa com curiosidade. Outras vezes com a coragem de imaginar algo diferente do que já existe. E, de vez em quando, um simples aroma é capaz de atravessar o tempo, cruzar fronteiras e nos lembrar de como certas histórias continuam vivas no ar que respiramos.