Por Vítor Zucher, CEO e fundador da Amplify IT.
Meu sobrenome é Zucher. Com frequência, alguém pergunta, em tom de brincadeira, se tenho alguma relação com Mark Zuckerberg, fundador da Meta. A resposta, naturalmente, é não.
Mas a pergunta revela algo curioso: ainda associamos inovação e grandes plataformas digitais a nomes estrangeiros, quase sempre do Vale do Silício, como se o protagonismo tecnológico fosse sempre importado.
A realidade é mais complexa. O Brasil não apenas consome tecnologia global, ele ajuda a construí-la.
Enquanto sabemos escalar de cabeça a seleção de 2002, com nomes como Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu, Lúcio e Marcos, poucos conseguem citar integrantes da geração de brasileiros que hoje moldam produtos digitais usados por bilhões de pessoas.
Um grande exemplo é Mike Krieger, um dos fundadores do Instagram, nascido no Brasil e protagonista na construção de uma das redes sociais mais influentes do mundo. Eduardo Saverin participou da criação do Facebook, plataforma que redefiniu a comunicação digital no século XXI.
No mercado doméstico com impacto internacional, lideranças como Cristina Junqueira ajudaram a transformar o Nubank em referência global em serviços financeiros digitais.
Já Geraldo Thomaz levou a VTEX à bolsa de Nova York, consolidando a empresa como uma das principais plataformas de comércio digital do mundo, enquanto Zeno Rocha representa uma nova geração de empreendedores brasileiros conectados ao ecossistema internacional de desenvolvedores.
Esses casos não são pontuais. O setor de tecnologia já representa parcela relevante do PIB de serviços no país, e o Brasil se consolidou como um dos principais polos de desenvolvimento de software da América Latina.
Empresas globais mantêm centros de engenharia aqui. Startups brasileiras competem em pé de igualdade em mercados internacionais. Desenvolvedores formados no país ocupam posições estratégicas no Vale do Silício e em hubs europeus.
Ainda assim, esses profissionais raramente se tornam referência cultural. E isso vai além do simbolismo. Países que reconhecem seus engenheiros, cientistas e empreendedores constroem um ciclo virtuoso de aspiração: referências moldam escolhas educacionais, influenciam vocações e ampliam o horizonte do que uma geração entende como possível.
Em uma economia baseada em conhecimento, a capacidade de formar, reter e inspirar talentos é um diferencial competitivo.
Quando o imaginário coletivo associa sucesso apenas ao esporte ou ao entretenimento, a tecnologia permanece periférica. O resultado é um paradoxo: formamos talentos competitivos globalmente, mas nem sempre consolidamos internamente a consciência de que também somos protagonistas na construção do futuro digital.
Mas um ponto positivo é que há sinais interessantes que a mudança começa a surgir de dentro do próprio ecossistema. Comunidades independentes de desenvolvedores, fundadores e investidores passaram a organizar encontros, mentorias abertas e iniciativas de compartilhamento público sobre a construção de produtos.
Um exemplo recente é o encontro Build in Public Meetup, que acontece em São Paulo, no Serena Café, e reúne empreendedores, desenvolvedores e investidores em torno de apresentações práticas, banca de jurados e troca direta de experiências.
Esses espaços não resolvem gargalos estruturais de educação ou financiamento, mas cumprem uma função relevante: criam pertencimento.
Ao tornar visível quem está construindo tecnologia a partir do Brasil, aumenta-se a probabilidade de consolidar uma identidade coletiva e a fortalecer a confiança de que é possível inovar com ambição global sem abrir mão das próprias raízes.
O Brasil já participa da construção das principais plataformas digitais do mundo e desenvolve soluções exportáveis. O desafio agora é transformar esses fatos em consciência coletiva.
Talvez a nova “seleção brasileira” não entre em campo com chuteiras, mas com laptops. Reconhecer isso pode ser um passo necessário para que a próxima geração não apenas exporte talento, mas construa, daqui, as próximas grandes empresas globais.