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Fundos escolhem SaaS porque o capital perdeu a paciência

Foto: divulgação.
Foto: divulgação.

Por Franklin Tomich, especialista em M&A e finanças corporativas.

A preferência dos fundos de investimento por negócios baseados em assinaturas não nasce de fascínio por tecnologia, mas de uma mudança profunda no humor do capital.

Com juros elevados, menor liquidez e pressão por retorno real, investidores passaram a penalizar modelos difíceis de projetar e a valorizar estruturas capazes de transformar crescimento em fluxo de caixa previsível.

Nesse contexto, empresas de software recorrente deixaram de ser uma aposta e passaram a funcionar como um filtro natural de risco.

Os números ajudam a entender por quê, mas não explicam tudo sozinhos.

Segundo o Global Private Equity Report 2024, da Bain & Company, tecnologia e software concentraram cerca de 23% dos investimentos globais em private equity em 2023, mesmo em um ano de retração relevante em M&A.

A leitura superficial aponta resiliência setorial. A leitura correta aponta seletividade. O capital permaneceu onde consegue medir, comparar e corrigir rota com rapidez.

O grande diferencial está menos no crescimento e mais na capacidade de antecipar resultados. Negócios recorrentes permitem acompanhar a saúde da operação em tempo real, entender onde o valor está sendo criado ou destruído e agir antes que o problema vire prejuízo.

De acordo com a McKinsey, empresas com maior previsibilidade de caixa chegam a negociar com múltiplos até 30% superiores aos de modelos mais voláteis. Não é prêmio por inovação, é desconto menor pelo risco percebido.

Outro ponto central é eficiência. Estruturas escaláveis, com baixo consumo de capital e pouca dependência de ativos físicos, ganham relevância quando o dinheiro deixa de ser abundante.

Análises da Andreessen Horowitz mostram que modelos asset light tendem a apresentar maior retorno sobre o capital investido ao longo do tempo. Em um cenário macroeconômico mais restritivo, isso muda a lógica da decisão: crescer deixa de ser apenas expandir receita e passa a significar expandir margem.

Isso também ajuda a explicar por que nem toda empresa de tecnologia continua atraente aos fundos. Dados da Bessemer Venture Partners indicam que negócios com retenção líquida elevada e ciclos curtos de retorno sobre investimento comercial seguem performando acima da média, enquanto estruturas infladas, dependentes de aquisição constante de clientes, perdem tração.

O mercado não rejeita o modelo. Rejeita a falta de disciplina financeira travestida de crescimento.

No fim, a preferência dos fundos revela menos entusiasmo setorial e mais maturidade na alocação de capital. Em um ambiente instável, investidores escolhem negócios que reduzem ruído, expõem problemas cedo e permitem correção rápida.

Não se trata de amar tecnologia, mas de confiar em estruturas que oferecem visibilidade. Quando o capital fica escasso, a paciência diminui. E previsibilidade deixa de ser virtude para se tornar condição básica de investimento.

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