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Inflação sente o peso da conta de luz em cenário climático instável

Foto: divulgação.
Foto: divulgação.

Por Jamil Mouallem, sócio-diretor da TS Shara.

Depois de ter exercido forte pressão sobre a inflação no último ano, a energia elétrica deve voltar a pesar no bolso dos brasileiros em 2026, com reajustes acima do Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), a inflação oficial do país.

Projeções de consultorias e instituições financeiras apontam alta entre 5,1% e 7,95%, podendo alcançar até 12% caso o cenário climático seja desfavorável.

O comportamento das tarifas reforça o papel da energia como um dos principais vetores de impacto sobre o custo de vida e sobre a dinâmica inflacionária nacional.

O ponto central dessa equação está na forte relação entre clima e geração de energia. Fenômenos naturais como o El Niño alteram os regimes de chuva, reduzem o nível dos reservatórios e aumentam a necessidade de acionamento das usinas termelétricas, que produzem energia a um custo mais elevado.

O impacto é direto: quando chove menos, a energia fica mais cara, e essa elevação se espalha por toda a economia.

O Brasil construiu sua matriz energética com base, principalmente, nas hidrelétricas, uma escolha historicamente estratégica por aproveitar um recurso abundante. No entanto, essa dependência se torna um fator de risco em um contexto de mudanças climáticas e maior imprevisibilidade meteorológica.

A água continua sendo essencial, mas já não pode ser encarada como uma variável estável. A volatilidade climática passa a se traduzir em volatilidade tarifária.

Esse cenário convida a uma reflexão mais ampla sobre o futuro do setor elétrico. Diversificar as fontes de geração não é apenas uma decisão ambiental, mas também econômica.

A ampliação do uso de fontes como solar, eólica e biomassa reduz a exposição do sistema a eventos climáticos extremos e cria uma matriz mais equilibrada, capaz de absorver choques sem transferir todo o impacto para o consumidor final.

Além disso, discutir energia hoje é discutir planejamento. A inflação da conta de luz não nasce apenas da escassez de chuvas, mas da ausência de alternativas suficientes quando essa escassez acontece. Quanto mais concentrada é a matriz, maior é a sensibilidade do sistema a qualquer variação externa.

Em um país continental como o Brasil, com diversidade de recursos naturais, a dependência excessiva de um único modelo revela um paradoxo estrutural.

O fato de a energia elétrica seguir acima do IPCA em 2026 indica que o problema não é episódico, mas recorrente. Ele sinaliza que a pressão sobre os preços tende a se repetir sempre que o clima impuser limites à geração hídrica.

Nesse sentido, a discussão sobre fontes alternativas deixa de ser um debate de longo prazo e passa a ser uma resposta prática a um problema imediato.

Em um ambiente de incertezas climáticas e instabilidade econômica, garantir previsibilidade energética se torna parte essencial da estratégia de desenvolvimento do país.

A energia, que sempre foi vista como vantagem competitiva brasileira, corre o risco de se transformar em um fator de instabilidade se não houver avanços estruturais na forma como é produzida e distribuída.

Talvez o maior desafio seja transformar a atual pressão inflacionária em oportunidade de mudança. O custo crescente da eletricidade expõe as fragilidades do modelo e reforça a necessidade de pensar a matriz energética não apenas como infraestrutura, mas como política econômica.

Em um país que depende tanto da água para gerar energia, preparar-se para um futuro com menos previsibilidade climática é, mais do que uma escolha, uma urgência.

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