Um estudo recém-publicado pela Spectra Investments analisou 83 programas de Corporate Venture Capital e 586 investimentos realizados nos últimos anos no Brasil, e os resultados abrem uma conversa que o mercado precisava ter: a taxa interna de retorno média dos fundos é de -10%, com 70% dos programas registrando TIR negativa, em uma comparação difícil com o benchmark global de Venture Capital, que fica em torno de 21% ao ano, segundo a Cambridge Associates.
A Spectra tem uma visão privilegiada desse mercado, atuando como fundo de fundos, co-investidora direta de ativos e acompanhando de perto a evolução do ecossistema brasileiro de VC ao longo dos anos, gerando uma base de dados que poucos têm. Quando uma gestora com esse histórico e visão traz uma análise técnica desse nível, vale ouvirmos com cuidado.
O auge dos programas de CVC no Brasil foi em 2021 e 2022, quando quase metade dos programas mapeados foram criados em um momento de otimismo real no mercado, com capital abundante e uma crença genuína de que a inovação aberta poderia transformar as grandes corporações. O problema, como os dados mostram, é que a estrutura e a clareza estratégica nem sempre acompanharam esse ritmo, e hoje 28% dos programas estão inativos ou com atividade reduzida, enquanto outros 36% estão em situação indefinida.
Entendo que um dos problemas centrais identificados com o estudo é a dificuldade de construir teses de investimento sólidas e de longo prazo à vista das lideranças, algo que tive a oportunidade de vivenciar na prática como gestor de Corporate Venture Building. Ao apresentar uma tese estruturada em horizontes de inovação, incluindo diversificação de receitas, construção de novos negócios e geração de competências internas, a pergunta era sempre a mesma: quando (no curto prazo) isso dá retorno financeiro? É uma pergunta compreensível, mas que mostra uma tensão estrutural entre a lógica corporativa e a lógica do Venture Capital.
Startups não foram feitas para gerar lucro imediato. Envolver queima de caixa por natureza e aplicar a lógica e os prazos do Private Equity a esse tipo de ativo é uma das origens do desalinhamento que os dados do estudo refletem. Vale destacar que cada horizonte de inovação tem sua lógica e suas métricas próprias, e misturá-las sem clareza prévia é um grande erro.
Um outro ponto que o estudo levanta é para um desafio do próprio sistema: 69% dos investimentos foram realizados em parceria com fundos de VC, o que em si é uma prática muito saudável, mas quando os fundo disponíveis investem pouco em inovações de ruptura, os CVCs que seguem esse fluxo acabam acessando um pipeline mais incremental do que transformador. Ou seja: fomenta o “mais do mesmo” do que o que realmente faria a diferença nas suas operações.
Será que somos investidores ruins ou aportamos recursos, financeiros de tempo e esforço, em empreendedores e negócios aquém das nossas expectativas? Ou a soma dos dois, quando vemos que o retorno médio dos fundos de CVCs, no reporte da Spectra, é de -10% ao ano?
Há, portanto, um movimento de desinvestimento em VC e CVC, o que diz muito sobre como os gestores mais experientes estão lendo o momento. E nem estamos falando do estresse do fluxo de caixa das empresas, cenário macro, taxas de juros e retorno da categoria versus outros investimentos com menor risco.
Mas para quem ainda acredita no CVC como ferramenta estratégica, e há boas razões para isso, o estudo aponta que ter clareza de propósito antes do primeiro cheque, gestão especializada, paciência de capital e reconhecimento de que retorno em acesso a tecnologia, inteligência de mercado e formação de equipe também é retorno.
Enfim, os números de hoje são o retrato de uma fase de aprendizado, e o próximo capítulo depende do que o mercado faz com eles.