Economia SP - Turnaround silencioso existe?

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Turnaround silencioso existe?

Foto: divulgação
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No Brasil, qualquer gestor que operou uma empresa nos últimos anos conhece bem a pressão para aparentar normalidade mesmo quando nada está funcionando como deveria, seja pelo custo reputacional de admitir dificuldades em um mercado onde crédito e confiança andam juntos ou pela cultura de gestão que ainda trata transparência como vulnerabilidade. Pesquisa da Endeavor com o BID Lab aponta que, no segmento de startups, 95% dos empreendedores já enfrentaram alguma situação adversa de saúde mental por causa de desafios atrelados aos seus negócios. Muitas empresas enfrentam crises sem nunca trazer publicamente o que estão atravessando, e é nesse contexto que o turnaround silencioso se torna um fenômeno relevante de entendermos.

Você não precisa estar entre o recorde de mais de 2,5 mil empresas que entraram com pedido de recuperação judicial nos últimos 12 meses. Ele acontece quando uma empresa começa a corrigir problemas estruturais sem declarar publicamente que está em crise, sem tratar trocas de liderança de forma grandiosa e sem sinalizar aos stakeholders que há uma transformação em curso. A virada vem de forma gradual, com uma revisão de produtos que ninguém chama de reestruturação, uma renegociação de contratos anunciada como rotina, uma mudança de cultura que leva anos para dar resultados. E então, quando o mercado percebe que algo melhorou, a percepção já chega atrasada em relação à realidade operacional.

Muitas empresas que passam por turnaround só recebem esse rótulo depois que os números já estão consolidados (e bem-sucedidos). Isso revela que os sistemas de avaliação são orientados para capturar sinais fortes e mudanças declaradas e cegos para recuperações que se distribuem em muitas variáveis ao mesmo tempo.

Além disso, há um custo interno nesse silêncio. Sem nomear o que foi feito, a empresa não documenta os aprendizados, não constrói o repertório institucional que seria útil na próxima vez e a memória de como a virada aconteceu se dissolve rapidamente, em especial quando há rotatividade na liderança. 

A pergunta, então, não é se o turnaround silencioso existe, porque ele existe e é operacionalmente legítimo. Estudo da Serasa Experian aponta que o período de turnaround médio de uma empresa é de 4 anos e 7 meses, ou seja, é uma jornada silenciosa e longa. A pergunta é se as organizações têm maturidade para reconhecê-lo enquanto acontece, já que esse reconhecimento, sem o barulho e sem a performance da crise, é o que separa uma recuperação bem gerida de uma sequência de boas sortes que ninguém soube capitalizar.

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Formado em Administração de Empresas pela ESPM, com pós em Branding e MBA em Venture Capital & Private Equity pela FGV/SP, é CEO da Sinergis e co-fundador da ESPM Angels.

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