Economia SP - IA nas empresas: como separar oportunidade real de hype

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IA nas empresas: como separar oportunidade real de hype

Foto: divulgação
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Por Ronald Dener, Engenheiro da computação pelo Centro de Informática da UFPE (CIn/UFPE),CEO e cofundador da Capyba Software.

A inteligência artificial já saiu do campo da promessa e entrou, de vez, na rotina de empresas e profissionais. O debate agora não é mais se ela vai impactar o mercado, mas comoem que velocidade e com quais consequências. O World Economic Forum aponta que 40% dos empregadores esperam reduzir parte da força de trabalho em atividades que possam ser automatizadas por IA. Ao mesmo tempo, a mesma transformação deve criar milhões de novas funções e exigir uma reconfiguração importante das competências mais valorizadas no trabalho.

Esse cenário ajuda a explicar o aumento da ansiedade ao redor do tema. De um lado, profissionais tentam entender como se manter relevantes em um mercado mais automatizado. Do outro, empresas correm para incorporar IA em busca de produtividade, eficiência operacional e vantagem competitiva. O problema é que, no meio dessa corrida, cresce também a tentação de adotar tecnologia sem clareza sobre o problema que ela deve resolver.

É justamente aí que mora um dos maiores riscos do momento.

A inteligência artificial pode, sim, acelerar processos, reduzir esforço operacional, apoiar decisões e ampliar a capacidade de execução das equipes. Ferramentas de automação, copilotos e agentes já permitem testar fluxos, produzir conteúdo, consolidar informações e desenvolver soluções digitais em uma velocidade impensável há poucos anos. Mas velocidade, por si só, não é estratégia.

Empresas não ganham competitividade apenas por adotar IA. Ganham quando conseguem aplicar IA sobre processos minimamente bem desenhados, com objetivos clarosdados utilizáveis e uma dor real a ser atacada. Sem isso, a tecnologia até impressiona em demonstrações e protótipos, mas raramente entrega valor consistente no dia a dia.

Esse ponto é importante porque boa parte do debate público sobre IA ainda é dominada por casos extremos: ou a visão apocalíptica de substituição em massa, ou a ideia otimista de que basta usar a ferramenta certa para transformar qualquer operação. Nenhuma das duas leituras, isoladamente, ajuda muito quem está tomando decisão de negócio no mundo real.

O que os estudos mais recentes mostram é um cenário mais nuançado. A Organização Internacional do Trabalho vem reforçando que o efeito mais provável da IA generativa, no curto e médio prazo, não é a substituição completa da maior parte dos empregos, mas a transformação das tarefas dentro desses empregos. Ocupações administrativas seguem entre as mais expostas, mas mesmo nesses casos o impacto tende a depender de contexto, setor, nível de digitalização e desenho do trabalho.

Na prática, isso significa que a pergunta mais útil para empresas e profissionais talvez não seja “a IA vai substituir pessoas?”, mas sim: quais partes do trabalho podem ser automatizadas, quais devem ser potencializadas e quais continuam exigindo repertório humano, contexto, julgamento e relação?

Essa distinção importa porque tecnologia é meio, não fim.

Durante muitos anos, quem passou por ambientes de produto, design e engenharia ouviu uma lição que continua atual: o que resolve um problema de verdade não é um sistema, uma interface ou uma nova ferramenta isolada, mas um processo bem pensado, conectado a necessidades reais. Com IA, essa lógica não muda. O que muda é a capacidade de acelerar etapas, reduzir custo de experimentação e ampliar a escala de execução.

Em outras palavras: IA não substitui estratégia. IA não substitui escuta. IA não substitui entendimento de contexto. IA potencializa tudo isso… quando “isso” existe.

É por isso que tantas iniciativas de adoção fracassam. Não porque a tecnologia seja fraca, mas porque ela é usada como atalho para tentar resolver problemas que, na origem, são de processo, posicionamento, gestão, integração de dados ou desenho operacional.

A McKinsey vem destacando exatamente esse ponto: as organizações que mais capturam valor com IA não são necessariamente as que apenas adotam ferramentas mais rápido, mas as que redesenham fluxos, ajustam governança, envolvem liderança e integram a tecnologia ao modelo operacional. Ou seja, o valor não está na ferramenta em si, mas na capacidade de reorganizar a empresa para usar bem essa ferramenta.

Para os negócios, isso abre uma janela relevante de oportunidade. Nunca foi tão viável testar hipóteses, automatizar rotinas, criar assistentes internos, acelerar desenvolvimento de produtos e aumentar eficiência com investimentos menores do que os exigidos em ciclos anteriores de transformação digital. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil cair na armadilha de implantar soluções vistosas, porém desconectadas do que realmente importa para o cliente, para a equipe ou para o caixa da empresa.

Por isso, a agenda mais madura de IA não deveria começar com a pergunta “qual ferramenta estamos usando?”, mas com outras, bem mais estratégicas:

– onde estão os gargalos reais da operação?

– quais tarefas são repetitivas, volumosas e padronizáveis?

– onde faltam velocidade, previsibilidade ou capacidade analítica?

– quais decisões podem ser melhor apoiadas por dados?

– e, principalmente, onde a automação melhora de fato a experiência de quem usa, compra, opera ou depende daquele processo?

Para os profissionais, a lógica é semelhante. O caminho mais promissor não parece ser competir com a máquina naquilo que ela já faz melhor, mas desenvolver repertório para trabalhar com ela de forma crítica. Isso inclui aprender a usar ferramentas, sim, mas também fortalecer habilidades de análise, comunicação, tomada de decisão, visão sistêmica, leitura de contexto e resolução de problemas reais. E essas são as competências que seguem centrais justamente porque a tecnologia ganhou espaço.

No fim, talvez o maior erro seja tratar IA como solução universal. Ela não é.

A inteligência artificial é uma das forças mais relevantes desta década. Vai pressionar modelos de negócio, alterar rotinas de trabalho, mudar expectativas de produtividade e exigir requalificação em larga escala. Mas o diferencial competitivo não estará em simplesmente aderir ao hype. Estará em separar moda de fundamento, automação de valor, demonstração de resultado.

Porque, em um mercado cada vez mais digital, a vantagem real continuará vindo de algo bastante humano: clareza para entender o problema certo, sensibilidade para desenhar melhores caminhos e disciplina para usar tecnologia a serviço de algo que faça sentido.

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