Por David dos Santos Villalva, CEO da Digitalidade.
O Brasil possui hoje mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Se ampliarmos o recorte para os 50+, o número supera 55 milhões, movimentando um mercado estimado em R$ 1,9 trilhão. Diante desse potencial, empresas e startups têm intensificado esforços para entender e atender esse público — mas muitas seguem errando por um problema básico de leitura.
A tese do “idoso digital”
Entre 2018 e 2022, consolidou-se a ideia de que os idosos “se tornaram digitais”, impulsionados principalmente pela pandemia. Essa leitura é sustentada por dois movimentos:
- Pesquisas quantitativas e qualitativas, que mostram aumento no uso de smartphones, redes sociais, e-commerce e bancos digitais;
- A luta contra o etarismo, que combate o estereótipo da pessoa idosa como ultrapassada.
O problema não está nas leituras — ambas são válidas. A distorção aparece quando se assume que o aumento no uso significa o mesmo que aumento na aprendizagem, autonomia e independência.
Na prática, muitos usuários 60+ aprendem por repetição de caminhos já demonstrados, com foco na execução da tarefa. Por isso, aumentar o uso de tecnologias não implica, por si só, operar com a lógica do digital.
Digital vs. tecnológico
Ser digital vai além do uso da tecnologia. Envolve operar dentro de uma lógica cultural: fluida, orientada à rede, baseada em padrões e na percepção de linguagens e comportamentos implícitos, com menor necessidade de mediação.
Já o uso tecnológico é orientado à resolução prática. A tecnologia entra como meio para um fim específico. Há menor propensão à experimentação, especialmente a intuitiva. Na prática, essas diferenças determinam as formas de interação e consumo.
Ao longo dos últimos anos trabalhando com o público 60+, o padrão que mais se repete é claro: existe adesão, existe interesse, existe uso — mas esse uso é majoritariamente funcional.
Eles entram no aplicativo para resolver algo, executam tarefas com objetivos reais, buscam uma navegação direta e descritiva, com baixa exploração. Trata-se de um padrão consistente de uso.
Onde o mercado erra
A maior parte das empresas não erra por ignorar esse público. Erra por interpretá-lo de forma imprecisa. E dois desses erros são recorrentes:
- Assumir comportamento digital
Interfaces, fluxos e comunicações são construídos com base em referências implícitas. Esse repertório nem sempre está presente. - Subestimar o fator biológico
O envelhecimento impacta visão, memória de trabalho, tempo de processamento e tomada de decisão. Esses elementos influenciam diretamente a experiência de uso.
O resultado é previsível: fricção, abandono e baixa adoção, mesmo quando há interesse.
Conclusão: entender como usam, não apenas se usam
Dizer que o público 60+ é digital ajuda a combater o preconceito. Entender que ele usa a tecnologia de forma prática, orientada à execução — e não à exploração intuitiva — resolve um problema de negócio.
Esse público está conectado — mas opera com uma lógica de uso própria.
E é exatamente essa diferença que separa produtos que são apenas acessados daqueles que são, de fato, utilizados.
Empresas que criam e entregam valor para esses usuários, compreendendo essas diferenças com maior precisão, reduzem fricção, aumentam adoção e capturam mais valor.