Por Bruno Gama, CEO da FlowCredi.
Em fevereiro de 2026, o Brasil registrou 81,7 milhões de inadimplentes, um aumento de 38,1% em relação a 2016, segundo a Serasa. Mas o dado que mais me preocupa não é esse. É o que vem logo depois: o endividamento não cede mesmo quando os juros caem.
No mesmo período, o valor total das dívidas cresceu 176% e a dívida média por consumidor avançou 12,2% acima da inflação.
Quando o endividamento resiste à queda da Selic, ele deixou de ser um choque. Virou estrutura. E estrutura tem causa.
A causa não é o crédito. O crédito é uma ferramenta. O problema é a combinação de duas realidades que nunca deveriam coexistir, e que, no Brasil, coexistem com uma naturalidade perturbadora.
De um lado: o Brasil tem mais de R$ 10 trilhões em patrimônio imobiliário. São casas, apartamentos, terrenos, riqueza construída tijolo a tijolo ao longo de décadas.
Do outro: quase R$ 100 bilhões circulam todo ano em cheque especial e rotativo de cartão, com taxas que frequentemente ultrapassam 200% ao ano.
Em contraste, o crédito com garantia de imóvel, o home equity, movimentou apenas 10 bilhões de reais em 2024, com taxas entre 18% e 22% ao ano.
O crédito dez vezes mais caro é dez vezes mais usado. Esse é o paradoxo que me tira o sono.
Não é falta de produto. Os bancos oferecem home equity faz anos. Não é falta de patrimônio. O Brasil tem mais imóveis por habitante do que a maioria das economias emergentes. O que falta é algo mais simples, e mais difícil de resolver: informação.
Segundo a S&P Global Financial Literacy Survey, apenas 35% dos brasileiros dominam conceitos básicos de educação financeira.
Dados do Banco Central com a OCDE mostram que 58% não entendem juros compostos e 53% não sabem calcular o impacto de atrasar uma conta. Apenas 21% planejam o orçamento de forma estruturada.
Esses não são dados abstratos. Eles se materializam em decisões financeiras tomadas no improviso, e com custo alto. O cartão de crédito virou extensão de renda para 33% dos brasileiros.
Desses, 40% acabam no rotativo todo mês, uma das linhas mais caras do mercado. Apenas 16% entendem o custo real dos juros que estão pagando, segundo a Anbima. E 72% da população nunca tiveram educação financeira na escola, segundo o Ipec.
Quando falta informação, o consumidor não escolhe a melhor solução. Escolhe a mais conhecida. E a mais conhecida quase sempre é a mais cara.
É por isso que o cheque especial, oferecido automaticamente por décadas, virou parte do vocabulário financeiro nacional, enquanto o crédito garantido por imóvel ainda opera na penumbra informacional. A assimetria não é de produto. É de exposição.
O que acontece quando o consumidor descobre que existe uma saída? A matemática muda completamente. Quem tem 40 mil reais no rotativo do cartão paga em torno de 3.000 reais por mês só de parcela.
Ao migrar essa dívida para um crédito com garantia de imóvel, esse valor pode cair para cerca de 550 reais mensais, uma redução de mais de 80% na prestação. O dinheiro liberado não é pouco: ele muda a vida da família.
Não estou descrevendo uma solução mirabolante. Estou descrevendo uma matemática simples que a maioria das pessoas nunca teve a chance de fazer, porque ninguém mostrou que era possível.
O Marco Legal das Garantias, implementado a partir de 2025, abriu uma janela importante: o mesmo imóvel pode ser usado como garantia em mais de uma operação, o processo ficou mais ágil e a segurança jurídica aumentou.
Modelos automatizados de avaliação imobiliária reduziram o tempo de análise de meses para dias. O atrito operacional, que era um dos maiores inibidores da demanda, está caindo.
Mas regulação e tecnologia resolvem metade do problema. A outra metade é comunicação. É educação. É fazer com que o consumidor endividado, que tem imóvel próprio e não sabe que tem uma saída, descubra que ela existe antes de renovar mais uma vez o limite do cheque especial.
Em países desenvolvidos, o estoque de crédito garantido por imóveis supera 100% do PIB. No Brasil, mal chegamos a 10%. Esse não é um dado de fracasso. É um dado de oportunidade, para o mercado, para as famílias e para o país.
Defendo uma posição que pode parecer contraintuitiva: o Brasil não precisa de menos crédito. Precisa de crédito melhor distribuído, e melhor entendido.
Quando o cidadão tem informação, ele deixa de ver o crédito como risco e passa a usá-lo como ferramenta. É essa mudança que pode ajudar milhões de brasileiros a retomarem o controle da própria vida financeira.