Economia SP - Empresas enfrentam crise de decisão na era do excesso de dados

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Empresas enfrentam crise de decisão na era do excesso de dados

Foto: divulgação.
Foto: divulgação.

Por Daniel Castello, CEO Brasil da Verzel.

Durante décadas, o discurso dominante no mundo corporativo afirmava que decisões ruins eram consequência da falta de informação. A digitalização prometia resolver esse problema ao tornar dados abundantes, acessíveis e mensuráveis em tempo real.

O cenário atual, porém, revela um paradoxo: nunca houve tanta informação disponível e, ainda assim, líderes enfrentam crescente dificuldade para decidir.

A chamada crise de decisão surge justamente quando o excesso de análises passa a substituir clareza estratégica, criando organizações capazes de medir quase tudo, mas cada vez menos seguras sobre qual caminho seguir.

O volume de evidencias ajuda a explicar esse fenômeno. Segundo relatório da IDC, o mundo deve gerar mais de 175 zettabytes de dados até 2025, quase cinco vezes mais do que em 2018, impulsionado por plataformas digitais, sensores e automação corporativa.

Ao mesmo tempo, levantamento da consultoria Accenture aponta que apenas 32% das empresas conseguem transformar indicadores em valor de negócio de forma consistente. A abundância informacional ampliou a capacidade analítica, mas também elevou o ruído decisório.

Quando múltiplos dashboards oferecem leituras diferentes sobre o mesmo problema, a decisão deixa de ser técnica e volta a ser interpretativa, exigindo julgamento humano.

A inteligência artificial acelera esse dilema. Cerca de 65% das organizações já utilizam IA generativa em alguma função empresarial, número que praticamente dobrou em relação ao ano anterior.

Apesar da rápida adoção, a maioria das corporações ainda não consegue capturar impacto financeiro relevante da tecnologia, e a McKinsey já falava disso em seu estudo publicado em 2024. O motivo não está na capacidade dos algoritmos, mas na dificuldade de integrar análises ao processo estratégico.

A IA produz cenários, probabilidades e recomendações, porém não define prioridades organizacionais nem assume riscos reputacionais ou econômicos. A decisão continua sendo um ato humano, carregado de contexto e responsabilidade.

Existe também um efeito psicológico pouco discutido. Pesquisa global da Oracle com a consultoria Workplace Intelligence mostrou que 85% dos executivos já sofreram algum tipo de “fadiga decisória” causada pelo excesso de dados disponíveis.

O fenômeno ocorre quando a quantidade de informações aumenta a percepção de risco em vez de reduzi-la, levando líderes a adiar escolhas ou buscar validação infinita em novas análises.

A promessa de decisões mais racionais acaba produzindo paralisia operacional, especialmente em empresas que confundem análise profunda com estratégia clara.

Mais informações sempre levam a escolhas melhores, já que reduzem vieses e ampliam a previsibilidade. Na prática, porém, decisões corporativas raramente dependem apenas de evidências quantitativas.

Mudanças de mercado, comportamento do consumidor e inovação competitiva envolvem variáveis ambíguas que não aparecem integralmente em modelos estatísticos.

Empresas excessivamente orientadas por métricas tendem a otimizar o presente e perder capacidade de imaginar o futuro. O risco não é tecnológico, mas cultural: transformar tecnologia analítica em substituta do pensamento estratégico.

A nova vantagem competitiva, portanto, não está em coletar mais dados, mas em decidir melhor com eles. Organizações que prosperam são aquelas capazes de simplificar interpretações, definir prioridades e assumir escolhas mesmo diante da incerteza.

A inteligência artificial amplia a capacidade de análise, contudo não elimina a necessidade de liderança, visão e responsabilidade humana. Na economia orientada por algoritmos, a escassez real deixou de ser informação e passou a ser clareza. Quem compreender isso primeiro terá menos relatórios e mais direção.

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