Por Gilles Coccoli, presidente da Edenred Brasil.
E se a próxima grande inovação de sua empresa viesse do atendimento ao cliente e não da TI? A inteligência artificial trouxe uma mudança de paradigma no ambiente corporativo que vai muito além dos ganhos de produtividade ou da automação de tarefas repetitivas. O que estamos testemunhando é a quebra de muros históricos, ou seja, a IA está tornando a inovação radicalmente mais acessível e inclusiva a todas as pessoas.
Durante décadas, transformar uma ideia em solução concreta dependia de um conhecimento técnico, orçamento dedicado e o aval de áreas especializadas. Programar, analisar dados complexos ou estruturar protótipos eram habilidades restritas a pequenos núcleos. Naturalmente, isso criava um gargalo que limitava quem, de fato, conseguia participar da construção do futuro das companhias.
A IA generativa e as novas ferramentas low-code estão implodindo essas barreiras. Hoje, um profissional de RH, vendas ou logística pode testar uma hipótese ou estruturar o rascunho de uma solução com uma autonomia antes inimaginável. Na prática, isso desloca a inovação de um único lugar, fortalecendo o intraempreendedorismo em sua essência mais pura: a capacidade de resolver problemas reais de quem está na ponta.
O conceito de cultura de inovação não é algo novo, mas ganha uma velocidade sem precedentes. Se antes inovar exigia ciclos longos e caros, hoje o custo da experimentação despencou. Segundo o estudo mais recente da McKinsey & Company, 88% das empresas globais já utilizam IA em pelo menos uma área de negócio. O dado mais relevante, contudo, é que as organizações que geram valor real com a tecnologia são aquelas que não a tratam como um ativo isolado da TI, mas como um catalisador de colaboração e aprendizado contínuo.
Posso dizer que vejo isso acontecer diariamente com meu time. Criamos comunidades de prática em IA, que não são apenas fóruns técnicos, mas espaços horizontais onde colaboradores de diferentes origens compartilham como estão “hackeando” seus próprios processos para servir melhor ao cliente. É a inteligência coletiva em sua máxima potência.
Outro exemplo é um programa que chamamos de “Se Vira nos 5”. A iniciativa nasceu em 2020 para estimular nossos colaboradores a criarem ideias rápidas para desafios reais de negócio. Até agora, já tivemos mais de 230 propostas, de menor a maior impacto. Quando unimos esse espírito empreendedor às ferramentas de IA, o potencial de execução escala exponencialmente. O colaborador que conhece a “dor” do cliente agora tem em mãos o “remédio” tecnológico para prototipar a solução.
É preciso ser claro: a IA não substitui o talento humano; ela o amplia. Ela permite que as pessoas gastem menos tempo no operacional e mais tempo no estratégico e no criativo. Ambientes que incentivam essa experimentação segura tendem a se tornar mais adaptáveis e, consequentemente, mais resilientes em um mercado volátil.
Por outro lado, é necessário governança. O acesso à IA deve vir acompanhado de diretrizes éticas claras, transparência e, sobretudo, investimento em capacitação. Não basta dar a ferramenta; é preciso alfabetizar para o novo mundo digital.
No fim, o principal impacto da inteligência artificial sobre o intraempreendedorismo é o resgate do fator humano e desenvolvimento de novas habilidades que serão cruciais para o futuro. Ao democratizar a inovação, deixamos de depender apenas de especialistas e passamos a contar com a inteligência de toda a organização. Em um cenário de mudanças aceleradas, permitir que cada colaborador seja um agente de inovação deixou de ser uma vantagem competitiva e tornou-se uma estratégia de sobrevivência.