Por Mateus Mendes, cofundador e CTO da Legitimuz
Durante anos, as empresas investiram para proteger seus sistemas. Agora, o maior desafio deixou de ser impedir invasões e passou a ser validar quem está entrando. Em um cenário em que inteligência artificial, deepfakes e identidades sintéticas evoluem rapidamente, confiar na identidade de um usuário tornou-se uma das decisões mais estratégicas para qualquer negócio digital.
Não por acaso, segundo o Gartner, até 2026, 30% das empresas questionarão a eficácia das soluções tradicionais de autenticação baseadas em biometria facial diante do avanço de deepfakes. Isso mostra que o mercado já entendeu que autenticar um usuário deixou de ser suficiente e que agora é preciso construir mecanismos capazes de comprovar quem está de fato do outro lado da tela.
É por isso que estamos entrando em uma nova fase da economia digital, em que a identidade, para além de um requisito técnico, se tornou um ativo estratégico. Agora, o diferencial está em garantir que cada pessoa, dispositivo, aplicação ou agente seja exatamente quem afirma ser, principalmente quando as credenciais se tornam alvo de criminosos e fraudadores.
O relatório “Cost of a Data Breach”, da IBM, mostra que credenciais comprometidas são o terceiro vetor de ataque mais comum dentro das organizações, sendo superado apenas por phishing e violação de integridade de fornecedores e da cadeia de suprimentos. Isto é, quando um invasor assume uma identidade legítima, ele deixa de agir como um intruso, operando como usuário autorizado e permanecendo por longos períodos no ambiente corporativo sem levantar suspeitas.
Esse cenário também muda a lógica da decisão empresarial. Cada cadastro aprovado, crédito concedido, contrato assinado ou transação autorizada representa uma decisão de segurança. Quando essa decisão falha, não é apenas a segurança que é comprometida, mas a própria capacidade da empresa de crescer com eficiência e preservar a confiança de seus clientes.
Essa realidade também ajuda a explicar por que o mercado global de Gestão de Identidades e Acessos (IAM) aumenta em ritmo acelerado. De acordo com a Fortune Business Insights, a projeção é que ele cresça de US$25,34 bilhões este ano para US$77,92 bilhões em 2034. A partir deste contexto, as organizações perceberam que gerenciar identidades tornou-se essencial para sustentar operações digitais, proteger receitas e manter a confiança dos clientes.
Ao mesmo tempo, a IA mudou totalmente o jogo e tornou as fraudes sofisticadas, pois os modelos conseguem produzir documentos falsificados, rostos e vídeos muito convincentes em poucos minutos.
Mais preocupante ainda é a popularização das identidades sintéticas, criadas a partir da combinação de informações verdadeiras com imagens geradas por inteligência artificial. Por isso, a identidade precisa ser um processo contínuo de validação, baseado em múltiplas evidências e avaliações de risco em tempo real. Ou seja, não basta confirmar quem o usuário é no momento do cadastro, mas também garantir que ele continue sendo aquela mesma identidade durante toda a jornada digital.
Por isso, a identidade deixa de ser responsabilidade exclusiva da área de segurança da informação e passa a integrar decisões de transformação digital, automação, experiência do cliente e estratégia corporativa. Empresas que ainda a tratam apenas como uma etapa do onboarding ou como uma exigência regulatória correm o risco de investir em inovação sobre uma base frágil de confiança.
A boa notícia é que também estamos assistindo ao amadurecimento das tecnologias capazes de enfrentar esse novo cenário. Biometria com prova de vida, autenticação biométrica e mecanismos contínuos de verificação já permitem construir jornadas digitais muito mais seguras sem sacrificar a experiência do usuário. A discussão atual, portanto, é o custo que as empresas terão se demorarem para fazer essa transição, pois na economia digital, segurança é o principal ativo de qualquer organização.