Por Carlos Keiichi, fundador do Fogo Alto.
O food service é um dos setores mais dinâmicos da economia brasileira, mas também um dos que enfrenta diariamente problemas como margens apertadas, dificuldade para contratar e reter pessoas, gestão de estoque, desperdícios, custos altos, complexidade operacional e consumidores cada vez mais exigentes.
Nesse cenário, falar em tecnologia já não é uma escolha. É uma necessidade. Mas como a tecnologia pode contribuir no dia a dia de um restaurante?
Essa resposta é o foco do trabalho que desenvolvemos no Fogo Alto.
Mais do que aproximar restaurantes de startups, nosso objetivo é construir uma ponte entre quem conhece profundamente os problemas do food service e quem está desenvolvendo soluções para resolvê-los. E essa ponte precisa funcionar nos dois sentidos. O restaurante precisa ser ouvido, e a startup precisa entender que uma solução que parece excelente no papel pode não funcionar em uma cozinha, no salão ou em uma operação de delivery.
É muito fácil criar uma tecnologia olhando para indicadores, planilhas e tendências de mercado. Mais difícil é entender o que acontece às 12h30 de um sábado, quando a casa está lotada, faltam pessoas na equipe, um fornecedor não entregou determinado produto e o estoque precisa ser conferido. É nesse momento que sabemos se uma solução realmente resolve esses problemas.
Existe uma diferença importante entre desenvolver uma tecnologia para o food service e desenvolver uma tecnologia com o food service.
No primeiro caso, corre-se o risco de criar ferramentas que não conversam com a operação. No segundo, o empreendedor parte de uma dor real, conversa com quem vive aquele problema e constrói uma solução capaz de ser incorporada à rotina. E é esse segundo caminho que queremos incentivar.
O Fogo Alto procura identificar startups que estejam próximas das dores reais dos restaurantes e que tenham capacidade de transformar essas dores em soluções práticas. Estamos falando de temas como gestão financeira, pessoas, estoque, compras, delivery, inteligência de dados, produtividade e eficiência operacional.
Não basta ter uma boa apresentação, uma tecnologia sofisticada ou uma ideia promissora. É preciso provar que aquela solução pode gerar valor para o restaurante.
Por isso, acreditamos tanto na aproximação entre empreendedores de tecnologia e donos de restaurantes. O conhecimento de um complementa o do outro. O empreendedor de tecnologia traz velocidade, inovação e capacidade de desenvolver novas ferramentas. O operador traz experiência, contexto e conhecimento sobre aquilo que realmente acontece no negócio.
Quando esses dois mundos trabalham juntos, a inovação deixa de ser apenas uma promessa e passa a ter aplicação prática.
O restaurante precisa participar da solução
Durante muito tempo, o setor de tecnologia desenvolveu produtos e depois procurou mercados para eles. No food service, esse modelo precisa ser repensado pois o restaurante deve estar no centro dessa conversa desde o início.
É o operador quem consegue dizer se determinado sistema economiza tempo ou cria mais uma tarefa para a equipe. É ele quem sabe se uma ferramenta de gestão realmente facilita a tomada de decisão ou apenas gera mais relatórios. É ele quem percebe rapidamente se uma solução de inteligência artificial resolve uma necessidade ou apenas acrescenta complexidade à operação.
No Fogo Alto, queremos criar esse ambiente de conexão e validação, onde a startup não deve apenas apresentar sua solução para o restaurante. Ela precisa ouvir o restaurante.
Essa troca também ajuda os próprios empreendedores de tecnologia a evoluírem seus produtos. Muitas vezes, uma conversa com um dono de restaurante revela uma necessidade que não estava no plano original da startup e que pode representar uma oportunidade enorme de desenvolvimento.
Inovação que chega à operação
O futuro do food service será cada vez mais conectado à tecnologia, mas isso não significa que os restaurantes precisam adotar todas as novidades que surgem no mercado. Precisamos falar de tecnologia com propósito.
Uma ferramenta é relevante quando ajuda a reduzir custos, aumentar produtividade, melhorar a experiência do cliente, facilitar a gestão ou permitir que o empresário tome decisões melhores. Se não entrega algum desses resultados, talvez não seja prioridade para aquele negócio.
Essa visão também muda a forma como enxergamos as startups.
Queremos apoiar empresas que estejam dispostas a entrar na operação, testar, errar, ouvir, ajustar e voltar para a mesa de negociação com uma solução melhor. O restaurante não pode ser apenas o cliente final de uma tecnologia; ele precisa ser parte do processo de construção.
Nosso papel é ajudar a aproximar esses universos, criando oportunidades para que boas ideias encontrem problemas reais e para que problemas reais encontrem empreendedores capazes de solucioná-los.
O Fogo Alto quer ser uma ponte entre os donos de restaurantes, startups, empresas de tecnologia, investidores e outros agentes do ecossistema, sempre partindo de premissa que a inovação precisa fazer sentido para quem está na operação.