O uso de inteligência artificial para identificar lacunas de aprendizagem começa a avançar para além das escolas e universidades e abre uma nova frente no mercado de educação corporativa. É nesse movimento que a edtech Premia anunciou a aquisição da Aulapp, unidade de negócios especializada em soluções educacionais para escolas e empresas.
O valor da operação não foi divulgado. A aquisição acontece após a Premia receber um investimento de R$ 5 milhões de um family office ligado ao setor de educação e faz parte da estratégia da companhia de ampliar sua atuação e chegar a 20 milhões de usuários nos próximos dois anos, ante uma base atual de cerca de 4 milhões.
Fundada em 2021 e sediada em Campinas, no interior de São Paulo, a Premia desenvolve tecnologia para diagnosticar dificuldades de aprendizagem, prever desempenho e recomendar intervenções e conteúdos. A empresa já opera de forma rentável.
Aquisição abre nova frente na educação corporativa
Com a incorporação da Aulapp, a edtech pretende levar a tecnologia utilizada no ambiente educacional também para treinamentos e desenvolvimento de profissionais dentro das empresas.
A estratégia passa pela avaliação de habilidades técnicas, as chamadas hard skills, e, posteriormente, pelo avanço sobre competências comportamentais e socioemocionais, ou soft skills.
“Assim como calculamos e damos previsibilidade para o desempenho educacional, queremos levar essa mesma inteligência para dentro das empresas”, afirma Ricardo Podolsky, cofundador e CEO da Premia.
Segundo o executivo, a combinação das duas operações cria uma nova avenida de crescimento ao unir a tecnologia preditiva da Premia à experiência da Aulapp no relacionamento com escolas e empresas.
A movimentação também ocorre em um mercado de grande escala. Segundo dados do Censo Escolar apresentados pela empresa, o Brasil possui cerca de 46 milhões de matrículas na Educação Básica, distribuídas por quase 179 mil escolas. Desse total, aproximadamente 37 milhões estão na rede pública e mais de 9 milhões na rede privada.
Fundador da Aulapp entra para sociedade
A aquisição também leva José Luis Poli, fundador da Aulapp, para o quadro societário da Premia, onde passa a atuar como conselheiro.
Conhecido no setor como Prof. Poli, o executivo acumula mais de 35 anos de experiência em educação e foi cofundador da Universidade Anhanguera, participando da construção e expansão do grupo educacional.
“Acredito nos avanços tecnológicos e no crescimento da IA como motores e catalisadores dessa mudança. A união das duas empresas potencializa essa força em escala”, afirma José Luis Poli, fundador da Aulapp e advisor da Premia.
A aproximação entre as empresas começou durante o Inova Educa, realizado no Inovabra, ecossistema de inovação do Bradesco, e avançou até a consolidação da operação em 2026.
Além de Ricardo Podolsky e José Luis Poli, fazem parte do quadro societário Tony dos Santos, cofundador e advisor, e Paulo Flavio Faia Nogueira, cofundador e CTO da Premia.
IA busca antecipar dificuldades de aprendizagem
Um dos principais ativos tecnológicos da Premia está nos modelos proprietários de inteligência artificial utilizados para analisar o comportamento de aprendizagem dos estudantes.
Segundo dados da própria empresa, a tecnologia consegue prever com mais de 90% de acurácia o desempenho em grandes avaliações nacionais, permitindo que professores e gestores identifiquem dificuldades antes da realização das provas.
Um levantamento realizado pela edtech com 250 mil estudantes e 80,3 milhões de questões respondidas apontou evolução média de 158% no desempenho de alunos da Educação Básica após três meses de utilização da plataforma.
No Ensino Superior, mais de 80% dos estudantes analisados foram aprovados em disciplinas com altos índices de reprovação. Entre os universitários pesquisados, 81% afirmaram que a plataforma ajudou na preparação para as provas, 84% perceberam melhora no desempenho e 85% disseram que gostariam de utilizar a tecnologia em todas as disciplinas.
Os indicadores são resultados divulgados pela própria Premia e reforçam a estratégia da empresa de transformar dados de aprendizagem em recomendações individualizadas.
“Construímos os nossos próprios modelos para entregar o melhor, não usamos IA pronta de mercado. Procuramos entender o que acontece com cada indivíduo para propor novos caminhos de aprendizado”, explica Ricardo Podolsky.
Edtech mira 20 milhões de usuários e novas aquisições
Depois do aporte e da aquisição da Aulapp, a estratégia passa agora por escala. Além de multiplicar por cinco sua base de usuários em dois anos, a Premia pretende ampliar a presença em redes públicas e privadas de ensino e construir uma posição mais relevante na educação corporativa.
A companhia também sinaliza que fusões e aquisições devem fazer parte dessa trajetória. A intenção é consolidar uma infraestrutura tecnológica capaz de atuar desde o diagnóstico da aprendizagem até a recomendação de conteúdos, conectando educação básica, ensino superior e desenvolvimento profissional.
A aquisição, portanto, representa mais do que uma ampliação de portfólio: coloca a educação corporativa como uma nova frente de crescimento para uma edtech que busca aplicar a mesma lógica de dados e inteligência artificial usada na aprendizagem acadêmica ao desenvolvimento de profissionais.