Economia SP - Por que colocar todas as fichas em uma única IA é um erro estratégico para as empresas

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Por que colocar todas as fichas em uma única IA é um erro estratégico para as empresas

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Por Eric Machado, CEO da Revna Tecnologia.

Muitas empresas ainda discutem qual é a melhor inteligência artificial do mercado, e essa pergunta já nasce equivocada. A questão mais importante não é qual modelo escolher, mas como evitar depender de uma única IA para operar o negócio. Trata-se do erro estratégico mais caro que uma empresa pode cometer na próxima década, e boa parte do mercado ainda não percebeu que já está cometendo esse erro. A recente discussão sobre restrições de acesso a modelos de IA reforçou algo que já vínhamos observando na prática, que é o fato de o maior risco não ser tecnológico, e sim estratégico, ligado à governança e à autonomia das empresas sobre suas próprias operações.

A história da tecnologia corporativa já deu esse veredito. Ao longo das últimas décadas, vimos organizações ficarem presas a um único ERP, a um único banco de dados ou a um único provedor de cloud que concentrava toda a operação crítica do negócio, e trocar de fornecedor se tornou caro, lento e arriscado mesmo quando a tecnologia contratada já não atendia às necessidades da empresa. O setor corre agora o risco real de repetir esse padrão com a inteligência artificial, em escala ainda maior, dada a velocidade com que os modelos evoluem e se tornam obsoletos.

Três evidências sustentam esse alerta, e juntas formam um retrato difícil de ignorar. A primeira é a maturidade que o mercado de cloud já alcançou e que a inteligência artificial ainda não alcançou. A segunda é a velocidade com que a IA deixou de ser experimento isolado e passou a ocupar o centro das decisões corporativas. A terceira é o custo financeiro, já bem documentado em outros setores de infraestrutura crítica, de qualquer interrupção relevante de operação.

Os números do mercado de cloud computing mostram que parte do setor já aprendeu essa lição na prática. De acordo com o Flexera 2025 State of the Cloud Report, 94% das companhias adotam hoje uma estratégia multi-cloud, evitando concentrar sua infraestrutura em um único provedor. Essa maturidade simplesmente não existe ainda no campo da inteligência artificial, e essa lacuna representa o maior risco não precificado do setor hoje. Se o mercado já entendeu, na prática, os riscos de depender de um único fornecedor de infraestrutura, repetir o mesmo erro justamente na tecnologia que mais promete redefinir a competitividade das empresas na próxima década deixa de ser imprudência pontual e passa a ser negligência estratégica.

A urgência desse debate cresce porque a IA deixou de ser experimento e passou a ocupar o centro da estratégia corporativa em praticamente todos os setores. Segundo a McKinsey, no relatório The State of AI 2025, 78% das organizações já utilizam inteligência artificial em pelo menos uma função de negócio, o que confirma que a fase de testes isolados ficou para trás. Quando a IA passa a influenciar decisões de atendimento, vendas e planejamento estratégico, depender de um único modelo deixa de ser uma escolha técnica e se torna um risco direto à continuidade do negócio como um todo.

Soma-se a isso um fator que poucas empresas colocam na conta, que é a continuidade operacional. Quando uma empresa constrói toda a sua operação em torno de um único modelo de IA, ela assume um risco financeiro que o mercado de data centers já conhece bem e que costuma ser subestimado até o momento da falha. Interrupções relevantes de infraestrutura raramente geram prejuízos pequenos, e casos que ultrapassam a casa dos milhões de dólares não são exceção, são recorrência. Transportando essa lógica para a inteligência artificial, qualquer instabilidade, restrição de acesso ou mudança de política de um fornecedor produz o mesmo tipo de impacto financeiro, com o agravante de afetar diretamente a capacidade de decisão da empresa, e não apenas sua infraestrutura.

Não existe vantagem competitiva possível fora de arquiteturas resilientes e multi-modelo, capazes de operar de forma independente de qualquer fornecedor específico. Isso passa por combinar diferentes tecnologias conforme o desafio de cada área do negócio e por manter a possibilidade real de trocar de fornecedor quando necessário, sem impacto para o cliente final. Quem tiver liberdade para combinar diferentes tecnologias, trocar de fornecedor quando necessário e manter a continuidade do negócio estará em uma posição muito mais forte do que quem apostar todas as fichas em uma única plataforma. Empresas que dependem de uma única plataforma de IA colocam em risco não apenas a operação diária, mas também sua capacidade de negociar preços e condições no futuro.

Por trás desses três dados, sobre adoção de IA, multi-cloud e impacto financeiro de interrupções, existe um veredito que o mercado ainda hesita em admitir, que é o fato de nenhum modelo, por mais avançado que seja hoje, se manter líder de forma permanente. Apostar todas as fichas nele não é estratégia, é negação de um padrão que a própria história da tecnologia corporativa já provou repetidas vezes. A tecnologia evolui rapidamente, mas a estratégia de reduzir riscos e preservar a liberdade de escolha continua sendo um diferencial competitivo duradouro, e é isso que vai separar as empresas preparadas para a próxima década daquelas que ficarão reféns dela.

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