Por Heitor Pires, CEO do grupo Syngular.
Quando alguém me pergunta sobre transformação digital, eu não respondo como CEO de uma empresa de tecnologia. Respondo como alguém que viveu essa transformação de dentro, primeiro como contador, depois como fundador de uma das maiores redes de certificação digital do país.
Antes de fundar a Certifica, parte do grupo Syngular, eu era o profissional que sentia na pele cada exigência nova da Receita Federal, cada obrigação acessória migrando para o digital, cada cliente aflito porque não sabia como se adaptar. Naquele momento, eu era a própria pessoa que a minha empresa iria atender no futuro. Vivia as mesmas dores, as mesmas dúvidas, a mesma falta de alguém que resolvesse. Se reconhecer ali foi o maior conhecimento que alguém pode reunir para construir um negócio.
Quando comecei a atuar como contador em Formiga, no interior de Minas Gerais, ainda sem saber onde aquilo me levaria, a virada de chave veio com a prática batendo na porta. A Conectividade Social, a nota fiscal eletrônica e o Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) chegaram empurrando a profissão inteira para o digital. A regra vinha pronta, mas o contador ficava perdido, não havia quem traduzisse aquilo e resolvesse na prática. Na minha cidade, por exemplo, não tinha quem emitisse certificado digital e eu precisava mandar meus clientes para cidades maiores da região. Ver aquilo se repetir foi o clique.
Ali eu entendi que a certificação digital ia destravar uma nova forma de exercer a profissão. E quem ajudasse o contador a atravessar essa ponte teria um papel enorme pela frente. Os números não mentem: somente na Syngular, mais de 350 mil certificados são processados por mês, com uma rede de mais de 380 Autoridades Certificadoras e mais de 4 milhões de certificados digitais ativos.
O que mudou de verdade
Nos últimos 10 anos, o contador brasileiro enfrentou mudanças radicais. A mais profunda foi o fim do tempo de espera. Durante anos, o profissional trabalhou com prazo de fechamento, com uma folga entre o fato e a declaração. A digitalização acabou com isso. Com obrigações em tempo quase real, o erro que antes se corrigia no fim do mês hoje aparece na hora.
Isso fez com que o próprio papel do contador mudasse. Quem só lançava dado e cumpria obrigação virou commodity, porque isso o sistema faz sozinho. O que passou a valer é a leitura, a orientação, o conselho. O profissional deixou de ser quem registra o passado da empresa para ser quem ajuda a decidir o futuro dela.
Agora, o próximo grande desafio do contador não é dominar mais uma obrigação acessória ou aprender mais um sistema, mas sim se enxergar também como empreendedor. O profissional é quem está mais dentro do negócio e quem tem mais a confiança do empreendedor. E, por isso, ninguém está em melhor posição para ampliar o que entrega do que ele.
De contador para CEO
Hoje eu lidero um negócio muito diferente daquele do início da minha carreira, mas o que aprendi como contador nunca me abandonou.
Contador bom é obcecado por precisão e por prazo, porque um erro pequeno vira um problema grande. Isso nunca saiu de mim. Continuo decidindo olhando menos para o discurso e mais para os números e a operação, que é onde a verdade de um negócio aparece. No fundo, tudo se resume à confiança de alguém. Como contador, era a do cliente. Como gestor, é a da equipe e a do mercado.
O que mais ficou, porém, foi algo que pouca gente associa à contabilidade: ouvir. O contador é quem escuta a aflição de não fechar o mês, o medo e também o sonho que existe por trás do negócio. Aprendi cedo que, antes do número, vem a pessoa. Hoje os objetivos e a escala são outros, mas eu ainda lidero e decido ouvindo primeiro, porque é escutando que se entende o que de fato está em jogo.
O Dia do Contador me lembra que a transformação digital não acontece de fora para dentro. Acontece quando quem vive o problema constrói a solução. E é por isso que, depois de tudo, eu ainda me vejo mais como contador do que como CEO, porque foi sendo contador que aprendi a ouvir, a resolver e a confiar, e é isso que continuo fazendo até hoje.