A expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e da digitalização das empresas está acelerando a demanda por infraestrutura de processamento de dados no Brasil.
No eixo São Paulo–Campinas, esse movimento já aparece nos números: a capacidade operacional de data centers cresceu 91% em apenas um ano, passando de 346 megawatts (MW) no primeiro semestre de 2025 para 661 MW no mesmo período de 2026.
O avanço coloca São Paulo como o terceiro mercado primário das Américas com maior crescimento percentual no período, atrás apenas de Atlanta e Virgínia, nos Estados Unidos, segundo levantamento da Cushman & Wakefield.
A perspectiva é de uma nova rodada de investimentos. Atualmente, o corredor São Paulo–Campinas possui 250 MW em construção e outros 2.066 MW planejados.
Redata pode acelerar novos projetos
O crescimento ganha um novo componente com o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), sancionado em 15 de setembro.
O regime prevê a suspensão de tributos federais sobre equipamentos destinados à instalação, ampliação e modernização de data centers, incluindo Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI sobre itens elegíveis.
O incentivo contempla estruturas direcionadas à computação em nuvem, processamento de alto desempenho e inteligência artificial.
“O mercado brasileiro já vinha apresentando crescimento consistente antes da sanção do Redata. A redução dos custos de implantação pode favorecer o avanço dos projetos, mas sua viabilidade continuará dependendo de fatores como disponibilidade de energia, conectividade, terrenos adequados, licenciamento e segurança regulatória”, afirma Dennys Andrade, Head de Market Research & Business Intelligence da Cushman & Wakefield.
96% da capacidade está ocupada
A expansão ocorre em um mercado com pouca capacidade disponível. No primeiro semestre de 2026, a capacidade operacional avançou 6%, de 623 MW para 661 MW. Ao mesmo tempo, o volume em construção saltou 69%, passando de 148 MW para 250 MW.
Mesmo com a ampliação da oferta, a vacância ficou em apenas 4,1%, o que significa que aproximadamente 96% da capacidade de colocation estava ocupada.
Os 2.066 MW atualmente planejados representam mais de três vezes a capacidade operacional do eixo São Paulo–Campinas.
O pipeline brasileiro também supera a soma dos projetos previstos em Querétaro, Santiago e Bogotá, que alcança aproximadamente 1,47 GW.
O volume planejado, porém, não significa que todos os projetos serão efetivamente construídos. Além do capital necessário, a expansão depende de disponibilidade de energia e acesso à rede de transmissão, conectividade, equipamentos especializados, licenciamento e demanda contratada.
“O impacto do Redata será medido pela capacidade de transformar projetos planejados em infraestrutura operacional. O Brasil reúne demanda e potencial de expansão, mas energia, conectividade e velocidade de execução determinarão quais empreendimentos efetivamente sairão do papel”, acrescenta Dennys Andrade.
São Paulo lidera infraestrutura na América Latina
Com 661 MW operacionais, o eixo São Paulo–Campinas possui quase o dobro da capacidade de Querétaro, no México, que registra 336 MW.
Santiago, no Chile, aparece com 272 MW, enquanto Bogotá, na Colômbia, possui 58 MW.
A escala ainda é distante dos principais polos norte-americanos. A Virgínia soma 12.338 MW em operação e Atlanta, 3.488 MW. Em velocidade de crescimento, porém, São Paulo se aproxima desses mercados: enquanto o corredor brasileiro avançou 91% em um ano, Virgínia cresceu 97% e Atlanta, 106%.
Energia pode definir próximo mapa dos data centers
Embora São Paulo e Campinas concentrem a maior infraestrutura do setor no Brasil, a próxima etapa de crescimento pode abrir espaço para outras regiões.
Locais com disponibilidade de energia renovável ou de baixa emissão, conectividade de alta capacidade e terrenos adequados tendem a entrar no radar dos novos projetos.
Segundo o estudo da Cushman & Wakefield, a capacidade paulista poderá atingir aproximadamente 1,6 vez o volume atual até 2036.
Mais do que incentivos tributários, a capacidade de transformar o volume recorde de projetos anunciados em data centers efetivamente operacionais dependerá, portanto, de uma combinação entre energia, conectividade, licenciamento e velocidade de implantação. Com IA e nuvem aumentando a necessidade de processamento, esses fatores tendem a ganhar peso na disputa pelos próximos investimentos do setor.