Por Julian Tonioli, CEO e sócio da Auddas, e Alexandre Chaves, consultor.
Durante décadas, boa parte do empresariado brasileiro enxergou a China por uma lente simples: uma gigantesca plataforma industrial sustentada por mão de obra abundante, custos baixos e capacidade de reproduzir
produtos desenvolvidos no Ocidente.
Depois de duas semanas percorrendo diferentes regiões do país, voltamos com a convicção de que essa leitura está distante da realidade. Encontramos uma China mais digitalizada, automatizada e orientada por produtividade do que imaginávamos, onde o custo da mão de obra, isoladamente, importa menos do que escala, tecnologia, infraestrutura e eficiência por unidade produzida.
Nas operações que visitamos, muitos processos pareciam nascer de uma lógica inversa à ainda comum em empresas brasileiras. Aqui, estruturamos uma atividade ao redor de pessoas e depois buscamos o que pode ser automatizado. Lá, parte-se do princípio de que tudo o que puder ser digitalizado, automatizado ou padronizado deve ser. O ser humano entra onde julgamento e decisão realmente fazem diferença.
Quando uma operação nasce preparada para automação, ela também nasce preparada para escala. Há maior investimento em tecnologia e infraestrutura, mas o crescimento deixa de depender, na mesma proporção, da contratação de mais pessoas.
Isso também contraria outro estereótipo: o de que a competitividade chinesa depende essencialmente de mão de obra barata. Em uma operação logística, ouvimos referências a remunerações mensais entre US$ 1,3 mil e US$ 1,4 mil para determinados profissionais. A vantagem estava na produtividade.
Em uma referência que conhecemos no Brasil, um profissional poderia processar cerca de 500 pacotes em determinado período. Em uma operação chinesa muito eficiente, esse número poderia chegar a proximadamente 2 mil. A pergunta muda: deixa de ser “quanto custa esse funcionário?” e passa a ser “quanto custa cada unidade que ele consegue processar?”.
No Brasil, ainda gastamos muita energia discutindo custos absolutos. Na China, tivemos a impressão de que a lógica está muito mais concentrada no custo unitário e na produtividade gerada por cada recurso.
A infraestrutura é parte dessa equação. Trens de alta velocidade, conectividade, pagamentos digitais, sistemas logísticos e superaplicativos formam uma plataforma sobre a qual cidadãos e empresas operam. Alipay e WeChat concentram pagamentos, transporte, alimentação, passagens e serviços. Isso reduz fricção. E reduzir
fricção também é produtividade.
O mesmo raciocínio aparece na organização territorial. Vimos regiões orientadas para determinadas vocações econômicas, com indústria, fornecedores, universidades, formação profissional e logística desenvolvidos ao redor desses polos. Isso cria polos produtivos e facilita ganhos de escala.
Para um país continental como o Brasil, a comparação chama atenção. Aqui, uma empresa pode fabricar em um Estado, comprar componentes em outro e matéria-prima em um terceiro, convivendo ainda com diferenças tributárias e logísticas. Na China, observamos movimentos de especialização e verticalização das cadeias que reduzem parte dessas ineficiências.
Nada disso significa que o modelo chinês possa ser transplantado para o Brasil. As diferenças políticas, institucionais e culturais são profundas. Também encontramos barreiras, especialmente na comunicação e na forma de construir relações comerciais. O inglês ainda é pouco disseminado em parte do ambiente empresarial que visitamos, e acordos podem ser tratados com maior flexibilidade do que aquela à qual companhias ocidentais estão acostumadas.
Essas diferenças importam quando pensamos em outra questão trazida pela viagem: o papel que o capital chinês poderá exercer no Brasil. Hoje, quando falamos em investimento chinês no país, pensamos rapidamente em infraestrutura, energia, construção ou agronegócio. Com menos frequência consideramos um investidor chinês para uma empresa de médio porte de tecnologia, distribuição, varejo ou serviços.
Isso pode mudar. À medida que empresas chinesas ocupam posições mais relevantes em inteligência artificial, robótica, veículos, biotecnologia e propriedade intelectual, aumenta também sua capacidade de participar do mercado global como investidoras.
Outro aprendizado foi perceber o quanto ainda carregamos preconceitos sobre a capacidade tecnológica chinesa. Durante muito tempo, “produto chinês” virou sinônimo de produto barato e de qualidade inferior. O
que vimos foi algo mais sofisticado: entregas por drones, robôs em hotéis, sistemas automatizados e aplicações de inteligência artificial incorporadas ao cotidiano.
A China deixou há muito tempo de ser apenas o lugar onde o mundo fabrica. É também um dos lugares onde o mundo se desenvolve.
Durante décadas, empresários brasileiros viajaram ao Vale do Silício, aos Estados Unidos e à Europa para observar inovação, gestão e tecnologia. A China também deveria entrar definitivamente nesse circuito. Não para procurar produtos baratos, mas para entender como as empresas são desenhadas para ganhar escala, como a tecnologia é incorporada aos processos e como a infraestrutura afeta a produtividade.
Duas semanas não são suficientes para compreender um país dessa dimensão. Voltamos, porém, com uma pergunta que vale para qualquer empresário brasileiro: por que ainda associamos competitividade quase automaticamente à redução de custos?
A principal lição chinesa, para nós, está nessa mudança de perspectiva. Não importa apenas quanto custa um trabalhador, uma máquina ou uma operação. Importa quanto valor cada um deles é capaz de produzir.
Produtividade, escala, infraestrutura e tecnologia fazem parte da construção da competitividade.