Por Rodrigo Beckmann, CTO da First Answer.
Quando se fala em inteligência artificial generativa, a maioria das empresas ainda enxerga a tecnologia como algo distante, experimental ou restrito a setores muito específicos. O setor de saúde é um dos mais exigentes em relação à qualidade da informação. Médicos e profissionais da área não tomam decisões com base em opiniões superficiais ou conteúdos genéricos. Eles buscam evidências, referências técnicas e validação científica. Essa cultura de rigor faz com que a adoção das IAs generativas aconteça de forma natural: quando uma ferramenta como o ChatGPT ou o Claude apresenta uma resposta estruturada, com citações e embasamento, ela passa a ser vista como uma fonte. E quem ignora esse sinal corre o risco de chegar atrasado a uma corrida que já começou.
Esse movimento não é apenas uma curiosidade de nicho. Ele revela uma mudança estrutural na forma como as pessoas buscam e consomem informação. A busca deixou de ser uma lista de links para se tornar uma resposta consolidada. E isso tem implicações profundas para as marcas. No modelo tradicional, estar bem posicionado no Google significava ser encontrado. No novo modelo, ser mencionado pela IA significa ser recomendado. E essa diferença é muito mais do que semântica: ela define quem influencia a decisão e quem se torna invisível.
O caso da Afya, maior ecossistema de educação médica do Brasil, ilustra com clareza essa transformação. Ao investir cedo em estratégias de otimização para IA generativa (GEO), a marca conseguiu aumentar em 220,4% em share of voice em oito meses. Mais do que isso, aproximadamente a cada quatro menções nas respostas das IAs, uma nova sessão orgânica chegou ao site da empresa, sem depender de mídia paga. Isso mostra que a visibilidade dentro das IAs não é apenas uma questão de reputação; ela se traduz em tráfego real, engajamento e potencial de conversão.
Apesar desses sinais, muitos setores ainda tratam a IA generativa como uma tendência distante. O erro mais comum é confundir volume de buscas com relevância da mudança. O que está acontecendo é uma migração silenciosa: públicos mais qualificados e criteriosos já estão usando as IAs como fonte de informação, mas esse movimento não aparece nos relatórios tradicionais de analytics. Quando as empresas perceberem a queda no tráfego, as referências dentro das IAs já estarão consolidadas por quem se antecipou.
Além da questão estratégica, existe um ponto de atenção fundamental para o setor de saúde: a governança da informação. O uso de IA generativa em ambientes clínicos exige cuidados rigorosos com privacidade, confidencialidade e validação técnica. Nunca se deve inserir dados sensíveis em ferramentas públicas sem proteção adequada. Toda informação gerada precisa passar por revisão humana especializada antes de qualquer uso. E é essencial monitorar continuamente quais fontes as IAs estão utilizando para falar sobre a instituição, para evitar a propagação de conteúdos desatualizados ou incorretos.
Credibilidade virou critério de escolha dentro das IAs. Em segmentos onde a confiança é decisiva, a presença nas respostas generativas deixou de ser um experimento para se tornar uma necessidade estratégica. E esse comportamento, que hoje é mais visível na saúde, tende a se espalhar para todos os setores à medida que as buscas com zero clique e as integrações de IA nos buscadores tradicionais se tornam padrão.
Esperar o mercado amadurecer é um erro de cálculo. As empresas que entenderem isso agora terão a chance de ocupar posições de referência enquanto o espaço ainda está em disputa. Quem deixar para agir quando a mudança se tornar óbvia vai encontrar um cenário onde as recomendações já foram definidas por outros. E, no novo modelo de busca, quem não é recomendado simplesmente deixa de existir.