Economia SP - O próximo diferencial competitivo não será a IA, mas a capacidade de governá-la

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O próximo diferencial competitivo não será a IA, mas a capacidade de governá-la

Por Tiago Farias, founder e co-CEO da TrueChange.

A corrida corporativa pela inteligência artificial entrou em uma nova fase e após investir em modelos, assistentes e ferramentas generativas, as empresas começam a perceber que acumular soluções não produz, necessariamente, uma operação mais inteligente. Em muitos casos, apenas cria uma nova camada de sistemas desconectados.

O próximo diferencial competitivo não dependerá da quantidade de ferramentas contratadas nem do modelo escolhido. Ele surgirá da capacidade de coordenar inteligência artificial, dados, processos e equipes dentro de jornadas completas. A vantagem deixará de estar na tecnologia isolada e passará para a arquitetura operacional construída ao redor dela.

A adoção empresarial da IA avançou rapidamente. O AI Index Report 2026, da Universidade Stanford, aponta que 88% das organizações já utilizam a tecnologia. Entretanto, a disseminação também reduz seu poder de diferenciação. Quando empresas concorrentes acessam os mesmos modelos e fornecedores, nenhuma conquista uma vantagem duradoura apenas por contratar determinada solução.

O problema aparece quando cada departamento adota uma ferramenta diferente. Marketing utiliza um gerador de conteúdo, atendimento implementa um chatbot, tecnologia cria um copiloto e o setor financeiro automatiza relatórios. Embora cada iniciativa possa produzir ganhos locais, as informações permanecem separadas e o resultado não atravessa a organização.

Um levantamento da IBM com 2 mil CEOs mostrou que 50% dos executivos reconhecem que a velocidade dos investimentos deixou suas empresas com tecnologias fragmentadas. Apenas 16% das iniciativas alcançaram escala corporativa, enquanto somente 25% entregaram o retorno esperado.

Essa fragmentação explica por que uma empresa pode ter dezenas de projetos de IA e continuar operando com processos lentos. As ferramentas produzem respostas, mas não compartilham contexto. Os modelos identificam oportunidades, mas não conseguem executar os próximos passos. Os departamentos automatizam tarefas, mas continuam dependendo de transferências manuais entre sistemas e equipes.

A governança estabelece as regras, os limites e políticas sobre essas ferramentas de forma coordenada. Ela determina qual modelo deve atuar em cada tarefa, quais dados pode consultar, quais ações pode executar e quando precisa encaminhar uma decisão para uma pessoa. Também conecta os resultados de uma etapa ao início da seguinte, evitando que a informação se perca durante o processo. Além de possibilitar um controle sobre o uso e os custos sobre a adoção dessas diversas soluções.

A vantagem estará na operação orquestrada

A vantagem da operação orquestrada está no núcleo da chamada Agentic Enterprise. Nesse modelo, diferentes agentes especializados atuam sobre uma mesma jornada, compartilham informações e executam ações dentro de regras previamente definidas. A organização deixa de usar IA apenas como apoio e passa a incorporá-la à operação.

Em uma solicitação de crédito, por exemplo, um agente pode verificar a identidade do cliente, enquanto outros analisam documentos, risco, fraude e capacidade de pagamento. Outro sistema prepara a proposta e inicia a formalização. O diferencial não está em cada modelo, pois concorrentes podem acessar tecnologias semelhantes. Ele aparece na forma de utilização dos modelos e na coordenação entre todas as etapas.

A pesquisa global da McKinsey sobre inteligência artificial mostra que 23% das organizações já utilizam algum sistema de agentes, enquanto outras 39% iniciaram experimentos. No entanto, em nenhuma função empresarial a parcela de companhias que escala agentes ultrapassa 10%. A distância entre experimentar e operar continua grande.

Para superar essa barreira, a empresa precisa construir três camadas complementares. A primeira reúne capacidades modulares, como consulta de dados, autenticação, pagamentos e análise de risco. A segunda orquestra agentes e processos. A terceira incorpora governança, segurança e auditabilidade às decisões automatizadas.

Sem essa estrutura, cada nova ferramenta exige integrações específicas, revisões manuais e adaptações demoradas. Com uma arquitetura modular, a organização consegue substituir modelos, acrescentar agentes e alterar regras sem reconstruir todo o processo. Essa flexibilidade protege a empresa da dependência de um único fornecedor e permite aproveitar avanços tecnológicos futuros.

A coordenação também exige dados disponíveis no momento da decisão. Informações proprietárias representam uma vantagem somente quando os sistemas conseguem localizá-las, interpretá-las e utilizá-las com contexto. No levantamento da IBM, 72% dos CEOs apontaram os dados próprios como essenciais para extrair valor da inteligência artificial, enquanto 68% destacaram a importância de uma arquitetura integrada.

Governança completa essa estrutura. Agentes capazes de executar ações precisam operar dentro de limites claros, registrar as fontes utilizadas e encaminhar exceções para supervisão humana. Uma pesquisa da McKinsey publicada em 2026 revelou que apenas cerca de 30% das organizações alcançaram maior maturidade em estratégia, governança e controles para sistemas autônomos.

O mercado não premiará a empresa com o maior número de agentes, mas aquela que conseguir fazê-los trabalhar como um sistema único. Modelos podem ser contratados, ferramentas podem ser copiadas e funcionalidades podem ser reproduzidas. A capacidade de coordenar dados, decisões, processos e pessoas, porém, nasce da própria organização.

Por isso, a próxima pergunta estratégica não será qual IA a empresa utiliza. Será quanto tempo ela leva para transformar uma informação em decisão e uma decisão em resultado. Nesse novo cenário, a inteligência artificial representa apenas a matéria-prima. A governança será a verdadeira vantagem competitiva.

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