A Vereda, startup de Rio Verde (GO) que conecta fabricantes de insumos diretamente aos produtores rurais, captou R$ 30 milhões em rodada seed. O aporte foi coliderado pela Valor Capital Group e pela Canary, com participação do Speedrun, fundo da Andreessen Horowitz (a16z) para startups em estágio inicial.
É o primeiro investimento do Speedrun no agronegócio. Os fundadores, João Pedro Aguiar de Souza e Pedro Galindo, ambos de 24 anos, foram os primeiros brasileiros selecionados pelo programa.
A captação chega em meio a uma onda de recuperações judiciais entre distribuidores de insumos, que expôs a fragilidade de um modelo que concentra venda, estoque e financiamento ao produtor.
Fundadores vêm do mercado financeiro
Fundada no fim de 2025, a empresa nasceu da parceria entre dois colegas da University of Southern California (USC). João estudou finanças e políticas públicas, e Pedro, administração e aplicações de inteligência artificial, na primeira turma do curso.
Antes de empreender, João atuou no time de investment banking do BTG Pactual voltado ao agronegócio. Pedro trabalhou no Pátria Investments, com foco em empresas de tecnologia.
Conta do modelo tradicional deixou de fechar
Historicamente, as revendas vendem os insumos, carregam o estoque e financiam parte dos custos da safra. Como o produtor compra antes do plantio e só tem receita após a colheita, a revenda estende prazos de sete a oito meses.
Nos últimos anos, a competição entre fabricantes e o avanço dos genéricos comprimiram as margens. Ao mesmo tempo, o custo de capital mais alto elevou a inadimplência a níveis históricos.
“Existe um consenso de que o setor precisa de um novo modelo, mas não vemos ninguém fazendo algo estruturalmente diferente”, afirma João.
Venda por comissão, sem estoque
A proposta da startup é separar essas funções. Ela atua como braço de vendas das indústrias parceiras, leva o portfólio dos fabricantes ao produtor e é remunerada por comissão, sem comprar nem manter estoque.
A operação combina equipe de campo própria e uma rede de agentes comerciais autônomos, em formato semelhante ao dos assessores de investimento autônomos (AAIs). A estrutura é liderada por João Vieira da Silva Filho, sócio e diretor comercial.
Com 25 anos no mercado de insumos, o executivo foi gerente sênior regional de vendas da Nutrien e passou pelo Grupo Tec Agro e pela BR Agro.
Financiamento sai da cadeia comercial
Na safrinha 26/27, a companhia roda um piloto em que tradings, bancos e fundos de crédito privado pagam o fabricante à vista e financiam a compra do produtor. A Vereda estrutura a operação, mas não concede crédito nem assume risco.
A indústria tira o risco de crédito do balanço e antecipa o recebimento. O produtor compra direto, sem a margem da revenda, com diferença que pode passar de 30% no preço final. Já os financiadores ganham um canal de originação de crédito agrícola pulverizado.
Segundo João, hoje a indústria já financia o produtor de forma indireta, pelo prazo que concede à revenda. “A indústria não quer vender dinheiro, quer vender produto e tecnologia para o campo”, diz.
Ainda em pequena escala, a startup opera com rentabilidade próxima à de uma distribuidora tradicional. “Construímos um modelo mais sustentável do que o atual. Agora precisamos provar que ele funciona em escala”, afirma.
Agentes de IA no WhatsApp
Toda a operação comercial roda em uma plataforma própria integrada ao WhatsApp. A IA transforma pedidos do produtor em recomendações de produto baseadas nos materiais das indústrias, prepara propostas, organiza a documentação do financiamento e acompanha cada negociação.
A empresa também mantém um canal em que agentes de IA conduzem toda a jornada de compra. Internamente, gestão financeira, backoffice e recursos humanos são operados por agentes.
Para Pedro, os agentes liberam o vendedor para construir a relação de confiança com o produtor. “A tecnologia não é o produto final da Vereda, é a infraestrutura desse novo modelo de distribuição”, explica.
Esse ponto atraiu a a16z. Para Emily Bennett, sócia do fundo, a IA tende a transformar setores tradicionais por dentro. “Acreditamos que a próxima geração de empresas de IA não vai vender ferramentas para setores como este, e sim reconstruí-los por dentro”, afirma.
Expansão a partir de 2027
Com os recursos, a prioridade no curto prazo é consolidar a operação em Goiás e ampliar a rede de indústrias parceiras e de produtores atendidos.
A partir de 2027, a meta é escalar o modelo de financiamento testado no piloto e levar o canal a outras regiões agrícolas do país.