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A evolução dos jogos: da criatividade limitada ao vício sem fim

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EVG Kowalievska
EVG Kowalievska

Houve um tempo em que jogar significava imaginar. Os jogos vinham com três vidas, uma fase final e um botão de pause que significava: “agora você pode descansar”.

Eles exigiam do jogador mais do que reflexo e tempo de tela. Exigiam criatividade, memória, resolução de problemas, resiliência diante da frustração.

Eram feitos com limitações técnicas, é verdade, mas com profundidade lúdica e narrativas que, mesmo simples, abriam espaço para a imaginação florescer.

Hoje, a indústria dos jogos se transformou numa verdadeira roleta de dopamina. Os jogos modernos são desenhados para nunca terminar.

As “vidas” são infinitas, desde que você pague. A derrota é substituída pela possibilidade de gastar mais para continuar. O desafio deu lugar ao consumo, a aventura virou compulsão.

Jogos como Fortnite, Roblox, Coin Master, Free Fire e tantos outros deixam de ser uma atividade de lazer para se tornarem um buraco negro de tempo e dinheiro.

Com ciclos infinitos de recompensa, microtransações e ranking social constante, o que deveria ser diversão tornou-se pressão psicológica.

E o mais grave: os mecanismos que os movem não são apenas sofisticados. São cientificamente manipulativos. Baseados em pesquisas sobre comportamento humano, os jogos modernos exploram a vulnerabilidade do cérebro em desenvolvimento e também do cansaço cognitivo dos adultos.

Eles sabem quando você vai desistir. E oferecem um “brinde” para você ficar só mais um pouco. Sabem que você vai gastar. E criam urgências artificiais para te levar ao impulso.

Na era do Mario, perder todas as vidas significava começar do zero. E isso nos ensinava algo. Nos ensinava que falhar faz parte. Que persistir era essencial. Que vencer não era garantido, era merecido. Hoje, o conceito de “game over” desapareceu. E com ele, parte do aprendizado emocional também se perdeu.

Além disso, os jogos atuais estão cada vez mais conectados a sistemas de aposta disfarçados. “Caixas surpresa”, “girar para ganhar”, “diamantes premiados”: termos emprestados diretamente dos cassinos foram remodelados para atrair crianças. A compulsão que víamos em adultos viciados em bingos agora é cultivada desde os 6 anos de idade.

Os danos estão documentados: aumento de ansiedade, distúrbios do sono, irritabilidade, agressividade, prejuízos na atenção e nas relações sociais. Crianças que se recusam a sair de casa para não perder a “missão diária”. Adultos endividados por compras dentro de jogos. Famílias desestruturadas por um ciclo que ninguém mais controla.

Essa é uma reflexão dolorida porque escancara nossa omissão. Trocamos jogos que cultivavam paciência, cooperação e imaginação por um mercado que promove isolamento, ansiedade e dependência. Trocamos um tabuleiro no chão da sala por uma tela no escuro do quarto.

Não se trata de demonizar os jogos. Mas de recuperar o controle sobre eles. De redescobrir o poder dos jogos como ferramentas de conexão real, aprendizado e diversão equilibrada. De repensar o que estamos permitindo entrar nas mentes mais plásticas da nossa sociedade.

Porque a pergunta que devemos fazer é simples: o que esses jogos estão nos ensinando?

E se a resposta for “a continuar jogando a qualquer custo”, então talvez seja hora de apertar o pause. Antes que seja game over para nossa sanidade coletiva.

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empreendedor, CEO da EquilibriON e especialista em bem-estar digital.

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