Plataforma de gestão financeira para médias empresas, que integra software, conta bancária e cartão corporativo em uma única solução, a Kamino, fundada em 2021, já captou mais de R$108 milhões em rodadas de investimento lideradas por fundos como Flourish Ventures, Quona Capital, Inspired Capital e Endeavor Catalyst.
Mais de 3 mil empresas utilizam a solução para automatizar tarefas como conciliação de contas, pagamentos em lote, emissão de faturas, gestão de despesas corporativas e cobranças. O sistema se conecta a múltiplos bancos via API e ERPs, eliminando processos manuais e oferecendo visibilidade em tempo real do fluxo de caixa. A plataforma já gerenciou mais de R$ 15 bilhões.
Conversamos com Gonzalo Parejo, CEO e cofundador da Kamino, sobre sua trajetória e desafios do mercado para 2026. Confira abaixo:
Como começou sua trajetória empreendedora?
Minha trajetória sempre foi pautada por resolver problemas estruturais em setores complexos. Vindo de experiências em tecnologia e logística, percebi que o ‘gargalo’ das médias empresas não era a falta de vontade de crescer, mas a infraestrutura financeira arcaica. Eu via CFOs e times financeiros sendo ‘engolidos’ por processos manuais, sistemas fragmentados e dados imprecisos. A Kamino nasceu dessa observação, mas com uma ambição maior do que apenas corrigir a ineficiência. Não queríamos apenas um software que automatizasse pagamentos ou oferecesse crédito. Queríamos criar a base para que o time financeiro deixasse de ser um centro de custo operacional e se tornasse o cérebro estratégico da empresa. A nossa visão foi construir o ‘Must Have’ da gestão moderna: uma plataforma onde serviços bancários, produtos financeiros e inteligência de dados operam juntos. Só assim é possível liberar essas equipes para saírem do operacional e focarem no que realmente importa: análise de dados em tempo real para tomar decisões que aceleram o crescimento.
Qual é o maior desafio das médias empresas brasileiras hoje?
O maior desafio imediato é a fragmentação da verdade financeira. Muitas médias empresas operam com dados espalhados em vários bancos e ERPs que não conversam entre si. Isso obriga o financeiro a trabalhar ‘olhando para o retrovisor’, gastando energia para fechar o mês passado em vez de projetar o próximo. Mas o desafio mais profundo é o custo de oportunidade dessa desorganização. Sem dados estruturados e governança forte, a empresa perde em duas frentes: primeiro, no acesso a crédito, já que o mercado exige transparência e previsibilidade; segundo, e mais crítico, na agilidade de reação. Em um cenário macroeconômico volátil, quem não tem visibilidade do fluxo de caixa em tempo real e com total acurácia não consegue antecipar cenários. O financeiro fica preso no operacional e a empresa navega no escuro. O desafio hoje é transformar essa área em um vetor de inteligência, garantindo que os dados sejam confiáveis o suficiente para sustentar decisões de expansão.
Quais mudanças tecnológicas devem transformar a área financeira em 2026?
A transformação para 2026 será ditada pela capacidade das empresas de adotarem Inteligência Artificial de forma prática, mas isso exige um pré-requisito que muitos ignoram: a qualidade dos dados. A IA não faz mágica com dados desestruturados. Por isso, vejo a mudança em três camadas. A primeira é a consolidação definitiva entre serviços financeiros (banco, cartão) e software de gestão. Isso elimina o erro humano na entrada do dado. A segunda é a estruturação desses dados em tempo real. Quando você garante que a informação financeira está limpa e centralizada, você habilita a terceira e mais importante camada: a inteligência preditiva. Em 2026, as médias empresas que tiverem essa ‘casa arrumada’, que é o que a Kamino entrega, poderão usar modelos de IA para receber insights valiosos de negócio, não apenas relatórios passados. Estamos falando de sistemas que sugerem otimizações de caixa e alertam sobre riscos futuros automaticamente. A tecnologia vai permitir que o financeiro finalmente opere em um patamar de sofisticação antes restrito apenas a grandes corporações.
Qual erro você observa com frequência nas médias empresas e que precisa mudar?
Um erro comum é tratar tecnologia como custo, e não como investimento estratégico. Muitas empresas mantêm processos manuais porque “sempre funcionou”, mas isso cria gargalos, aumenta o risco operacional e limita o crescimento. Em 2026, eficiência e velocidade serão essenciais e elas só vêm com automação e dados centralizados. Outro erro é não capacitar o time financeiro. A tecnologia só entrega valor quando as pessoas conseguem usá-la bem. Com a chegada da IA, a capacidade de interpretar dados e transformar informação em ação se torna ainda mais importante. Empresas que não investirem nisso vão operar em desvantagem.
O que os executivos financeiros devem priorizar em 2026?
A prioridade número um é garantir visibilidade total e em tempo real da saúde financeira da empresa. Sem isso, qualquer planejamento fica vulnerável. Em seguida, investir em automação inteligente para reduzir tarefas repetitivas e permitir que o time atue em análise, estratégia e leitura de riscos. Além disso, preparar a empresa para acessar crédito em melhores condições. Governança, fluxo de caixa organizado e dados consistentes influenciam diretamente no custo de capital e capacidade de expansão. Em um cenário de competição acirrada, empresas com estrutura financeira sólida terão mais oportunidades para crescer.