Por César Silva, diretor-presidente da Fundação de Apoio à Tecnologia (FAT).
A saúde mental é um dos maiores desafios da atualidade para estudantes do Ensino Superior, especialmente em cursos de alta exigência como Medicina e Engenharia.
No Reino Unido, uma mudança de paradigma está em curso: universidades estão deixando de ser reativas para se tornarem preditivas no suporte ao estudante.
Práticas de IA Preditiva e Learning Analytics se tornaram grandes aliadas dessas instituições, sendo capazes de identificar sinais precoces de exaustão (Burnout) e risco de evasão.
Chamou-me a atenção que o diferencial está no fato de a análise não se basear apenas em notas, mas no rastro digital de engajamento do aluno.
Na prática, os sistemas monitoram padrões de comportamento no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e o acesso a bibliotecas digitais.
Se um estudante que mantinha uma rotina frequente de logins e downloads de materiais subitamente interromper essas atividades por um período prolongado, o sistema gera um alerta.
Esse “silêncio digital” é interpretado como um possível indicador de desengajamento ou crise emocional.
Entre alguns casos em destaque, a Nottingham Trent University (NTU) é pioneira com seu Student Dashboard, que centraliza dados de engajamento para intervenções proativas de tutores.
Já a Northumbria University utiliza modelos de dados para suporte ao sucesso e bem-estar estudantil, focando na personalização do acolhimento.
Por lá, o Comitê Conjunto de Sistemas de Informação, o JISC (Joint Information Systems Committee), uma entidade sem fins lucrativos focada em oferecer soluções de TI para o ensino superior e à pesquisa científica, lidera o projeto Student Wellbeing Analytics, criando um Código de Prática que equilibra o uso de dados preditivos com a ética e privacidade (GDPR).
O objetivo não é o monitoramento punitivo, mas a criação de uma rede de segurança tecnológica. Ao identificar a queda de engajamento em tempo real, a universidade ganha uma “janela de oportunidade” para oferecer apoio psicológico e pedagógico antes que o problema se torne irreversível.
Quando pensamos que tais práticas já são aplicadas, de forma bastante promissora, em outros países, não podemos nos apegar ao pensamento cômodo de que “só é possível em países mais desenvolvidos”.
O Brasil, historicamente, possui, sim, um potencial de inovação grandioso em várias áreas, e em tecnologia e educação isso não é diferente. Por outro lado há, de fato, falhas no aprimoramento ou na destinação de recursos.
Esse cenário, portanto, precisa de mudanças urgentes. E que estas sejam pautadas pela assertividade. Em nível global, o futuro do ensino superior parece caminhar para onde o dado serve à humanização e a tecnologia protege o capital mais valioso das instituições: o estudante.