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Criar em tempos de descrença

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Foto: divulgação
Foto: divulgação

Não é apenas uma crise econômica. É uma crise de sentido.

Criar passou a exigir algo além de talento e estratégia. Exige fôlego. O público está mais cético, as promessas perderam força, as narrativas prontas já não convencem. Marcas falam, plataformas aceleram, conteúdos se multiplicam. Ainda assim, a sensação dominante é de vazio. Como se tudo dissesse muito e significasse pouco.

Os números ajudam a explicar esse cansaço coletivo. O Brasil está entre os países que mais consomem conteúdo digital no mundo, com mais de nove horas diárias de exposição à internet. Ao mesmo tempo, pesquisas de mercado mostram queda consistente nas taxas de atenção e engajamento. Nunca se produziu tanto e nunca foi tão difícil permanecer relevante.

É nesse cenário que a economia criativa continua existindo. Não por entusiasmo, mas por insistência. Criar se tornou quase um ato de fé. Não uma fé ingênua, mas uma fé prática. A crença de que ainda vale a pena produzir algo que atravesse, que fique, que toque.

A descrença não paralisa. Ela filtra. O que sobrevive são as ideias que não dependem de hype, os projetos que não gritam, as criações que não prometem salvar o mundo, mas ajudam a sustentá-lo. Em contextos de saturação, a criatividade deixa de ser espetáculo e volta a ser ofício.

O próprio mercado sinaliza essa virada. Relatórios recentes apontam uma migração clara do volume para o valor. Menos campanhas, menos lançamentos, mais foco em consistência, comunidade e relevância de longo prazo. A economia criativa, tantas vezes romantizada, entra em seu momento mais honesto.

Criar sem garantias. Produzir sem aplauso imediato. Sustentar processos mesmo quando o retorno é lento. Há menos euforia e mais responsabilidade. Menos promessa e mais presença.

Talvez o desafio deste tempo não seja convencer, mas permanecer. Continuar criando quando os números oscilam, quando o alcance cai, quando o futuro parece opaco. Porque há algo profundamente econômico e profundamente humano em não desistir da imaginação coletiva.

Em tempos de descrença, criar não é sobre acreditar que tudo vai dar certo. É sobre recusar a ideia de que nada mais faz sentido. E talvez seja justamente aí que a economia criativa cumpra seu papel mais importante. Não o de gerar promessas, mas o de manter aberto o espaço onde o futuro ainda pode ser pensado.

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Fundadora da B.done

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