Por Patrick Gare Cãnas, financial advisor da MZM Wealth.
No mercado financeiro, risco é um conceito central, mas muitas vezes mal compreendido. A percepção comum se concentra nas oscilações de preço e na volatilidade diária dos ativos, que podem gerar preocupação e incerteza.
Porém, investir com inteligência exige ir além dessa visão imediatista, entendendo os riscos que realmente podem impactar a preservação do patrimônio e a tomada de decisões estratégicas.
Como alerta Howard Marks, sócio fundador e vice-presidente da Oaktree Capital Management, essa percepção é limitada. Para ele, o verdadeiro risco não está nas variações momentâneas do mercado e sim na possibilidade de perdas permanentes de capital.
Esse debate ganha relevância em um momento em que o universo de investidores brasileiros continua em expansão.
A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostra que o país deve registrar um crescimento de quatro milhões de pessoas aplicando em produtos financeiros em 2025, passando de 37% para 39% da população.
Ao mesmo tempo, o volume aplicado por investidores pessoas físicas já alcança um patamar significativo, somando R$ 7,9 trilhões no final de junho, um avanço de 6,8% em relação a dezembro de 2024.
Com mais pessoas investindo e mais recursos em circulação, aumenta também a necessidade de compreender com profundidade os riscos que realmente importam. A partir dessa perspectiva, muda-se completamente a forma de enxergar o mercado. A volatilidade faz parte do funcionamento natural dos ativos, ela vem e vai.
O que realmente destrói patrimônio são decisões tomadas em momentos de euforia, quando preços estão inflados, o otimismo generalizado obscurece a percepção de risco e até investidores experientes ignoram sinais de alerta.
É justamente nesse ambiente, aparentemente favorável, que surgem os riscos mais perigosos. Marks também destaca o caráter cíclico do risco, em que aumenta quando os investidores relaxam, pagam caro pelos ativos e acreditam que “desta vez é diferente”, frase que, historicamente, precede erros custosos.
Em contrapartida, o risco diminui quando o mercado adota uma postura mais cautelosa e pessimista.
Nesse cenário, muitas vezes desprezado, que aparecem as oportunidades mais seguras: preços mais baixos, margens de proteção maiores e potenciais de retorno ajustados ao risco.
Essa lógica subverte o senso comum, já que mercados otimistas podem ser muito mais arriscados do que aparentam, enquanto cenários pessimistas, que afastam grande parte dos investidores, podem oferecer terreno fértil para decisões estratégicas.
Compreender esse paradoxo é essencial para qualquer gestão de risco consistente. Investir bem não significa perseguir o maior retorno possível, mas avaliar se o retorno oferecido compensa os riscos assumidos naquele ponto do ciclo econômico.
Reconhecer incertezas, analisar cenários com rigor e agir com prudência são atitudes que evitam as perdas que realmente importam, aquelas das quais não se consegue se recuperar.
Marks lembra que um bom investidor é aquele que observa o contexto, resiste ao impulso nos momentos de otimismo excessivo e entende que riscos mal remunerados simplesmente não valem a pena. A preservação do capital deve vir antes da ambição por resultados imediatos.
Como resume o próprio Marks: “Risco é aquilo que sobra quando você acha que já pensou em tudo”.
A frase reforça a importância de cautela, planejamento e disciplina, pilares essenciais para construir uma estratégia de investimento sólida e sustentável.
No fim, a mensagem central é que investir bem significa ir além da volatilidade e compreender os riscos que realmente podem comprometer o patrimônio. Tomar decisões alinhadas ao ciclo econômico, aos preços justos e à própria tolerância ao risco reduz a chance de perdas irreversíveis e aumenta a segurança no longo prazo.
Com análise, disciplina e foco na preservação de capital, o investidor consegue atravessar até os cenários mais desafiadores com inteligência e confiança.