Por Conrado Schlochauer, fundador da nōvi.
O mundo corporativo está obcecado com aprendizado. Empresas investem milhões em programas de treinamento, plataformas de educação corporativa e certificações.
Mesmo assim, essas iniciativas não parecem se traduzir em mais preparo no cotidiano do trabalho, e muitos profissionais seguem operando no limite de suas capacidades.
Existe um modelo famoso no mundo corporativo chamado 70-20-10. Ele diz que 70% do aprendizado acontece em experiências de trabalho, 20% em conversas com colegas e apenas 10% em treinamentos formais.
Charles Jennings, um dos principais especialistas no tema, me disse certa vez que, se criasse esse modelo hoje, chamaria de 75-24-1.
O aprendizado de verdade, segundo ele, ocorre no dia a dia das pessoas. Esse é o lifewide learning, aprendizado que acontece em todos os domínios da vida, não apenas em salas de aula ou plataformas online.
Esse conceito, proposto pela UNESCO, reconhece que aprendemos tanto no trabalho quanto na família, no lazer ou na convivência comunitária.
O problema é que vivemos no “piloto automático”. Atravessamos reuniões sem prestar atenção, executamos tarefas sem refletir sobre o que estamos aprendendo e trocamos experiências potencialmente transformadoras por respostas automáticas. E aí surge a pergunta: como transformar esses 99% de tempo não estruturado em oportunidades reais de crescimento?
Os 3 movimentos do aprendizado incidental
O aprendizado incidental, aquele que ocorre como subproduto de atividades que realizamos por outros motivos, pode ser associado a três movimentos cíclicos: despertar, explorar e transformar.
Mais do que um processo linear com começo, meio e fim, estamos falando de uma jornada em que cada movimento alimenta o próximo em um ciclo contínuo de desenvolvimento.
Despertar é sair do piloto automático. É reconhecer que você tem muito mais controle sobre o que acontece “por acaso” em sua vida do que imagina, sem ignorar, obviamente, as condições que não escolhemos e que moldam profundamente nossas trajetórias, como origem social, gênero ou raça.
O ponto aqui é olhar para o que está ao alcance. Nosso desenvolvimento se baseia na interação com os ambientes em que vivemos, e, embora muitos desses ambientes nos sejam dados, outros são escolhidos, ajustados e até criados por meio de pequenas decisões cotidianas: onde colocamos nossa atenção, com quem nos conectamos, que situações buscamos ou evitamos.
No contexto profissional, despertar significa assumir agência sobre seu desenvolvimento. A agência é a capacidade de agir de forma intencional, fazer escolhas conscientes e influenciar ativamente o rumo da sua trajetória, em vez de apenas reagir ao que a empresa, o RH ou a liderança definem.
Explorar é aumentar deliberadamente sua exposição ao novo. No ambiente corporativo, isso não significa necessariamente mudar de empresa ou fazer um MBA. Significa buscar experiências que ampliem seu repertório de vida, não apenas de conteúdo técnico.
Um executivo pode explorar conversando com o estagiário sobre sua visão de mundo. Pode explorar aceitando liderar um projeto fora de sua expertise. Pode explorar frequentando aquele evento da empresa que normalmente ignora.
A pesquisadora Gillian Sandstrom descobriu que conversas com estranhos não apenas aumentam nosso bem-estar, mas expandem radicalmente nossa capacidade de lidar com incertezas.
No ambiente profissional, isso se traduz em maior adaptabilidade, criatividade e capacidade de navegar mudanças, exatamente as competências que as empresas dizem buscar, mas raramente cultivam de forma intencional.
Explorar também significa buscar experiências fora do trabalho que irrigam sua vida profissional. Estudos demonstram que participação em atividades culturais está associada a mudanças no traço de personalidade chamado “abertura à experiência”, aquele que determina nossa curiosidade e disposição para o novo. Quanto mais você consome arte, viaja, experimenta o diferente, mais aberto você se torna.
Transformar é onde acontece a mágica, mas exige disciplina. De pouco adianta viver experiências diversas se você não para para processá-las. Transformar requer dois movimentos essenciais: presença e reflexão.
Presença é estar genuinamente no momento. Por quantas reuniões você passa enquanto responde emails mentalmente? Quantos projetos você executa sem realmente observar o que está acontecendo? A UNESCO propõe que a educação de adultos deve ser “verdadeiramente transformadora” e não apenas reativa às necessidades do mercado. Mas transformação exige presença: você precisa estar lá para que algo te toque.
Reflexão é o ato de parar para pensar sobre o que você está vivendo. É nesse movimento que entra a metacognição, que é quando você reflete conscientemente sobre como aprende.
No mundo corporativo, isso se traduz em rituais que auxiliem você e seu time a mapear e processar os aprendizados do cotidiano. Pode ser quinze minutos no final da semana perguntando: “O que aprendi? O que me surpreendeu? O que eu faria diferente?”
Por que isso importa além do mercado de trabalho
O lifewide learning sempre foi tratado como secundário em ambientes corporativos, uma espécie de hobby de desenvolvimento pessoal que não tem lugar na seriedade dos negócios. Mas essa visão está mudando, e precisa mudar mais rápido.
O Institute for Lifelong Learning da UNESCO publicou um relatório com um título revelador: “Educação para a Cidadania: empoderando adultos para a mudança”.
O documento é claro: “À medida que as economias e sociedades mudam, a Aprendizagem ao Longo da Vida precisará se estender muito além de simplesmente responder às necessidades do mercado de trabalho.”
Existe um fenômeno que o jornalista Derek Thompson chama de “workism”, isto é, a crença de que o trabalho é a peça central do nosso propósito e identidade. Estamos substituindo a religião pelo trabalho, esperando que ele nos forneça comunidade, propósito, autorrealização. E, no processo, esquecemos de viver.
O escritor Simone Stolzoff, autor de “The Good Enough Job”, se declara um “workist em recuperação”. Ele passou a carreira buscando uma alma gêmea vocacional, um emprego que fosse reflexo único de quem ele é. Até perceber que estava desperdiçando sua vida real em busca de uma vida profissional perfeita.
As etapas do aprendizado incidental nos convidam a algo mais profundo: não aprender apenas para ser mais competitivo no mercado, mas para viver melhor. Para nos tornarmos quem queremos ser, não apenas melhores executores de tarefas profissionais.