Por Lucas Madureira, co-CEO e co-fundador da Gedanken.
Por muito tempo, o debate sobre contratações seguras ficou restrito a cargos estratégicos e de liderança. Currículo, experiência técnica e boas referências pareciam suficientes para garantir uma decisão acertada. A realidade, porém, mostra que esse modelo é incompleto e, em muitos casos, perigoso. A preocupação com riscos na contratação já se reflete nas práticas do mercado. Pesquisa da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) mostra que 87% das empresas no Brasil realizam algum tipo de verificação de antecedentes em seus processos seletivos, evidenciando que a checagem prévia deixou de ser uma medida pontual e passou a ser um instrumento central para proteger a segurança interna e a reputação das organizações.
A checagem de antecedentes, ou KYE (Know Your Employee), já é um instrumento consolidado de gestão de risco. Esse processo não deve se restringir a executivos. Ele é especialmente crítico para cargos operacionais e para colaboradores de prestadores de serviço que circulam diariamente por fábricas, obras, escritórios e condomínios.
Ignorar essa etapa pode ter consequências graves. Casos de violência, roubos internos, fraudes, danos reputacionais e até riscos à integridade física de pessoas estão diretamente ligados à ausência de análises prévias básicas. Não se trata de suposição, mas de fatos concretos: situações que poderiam ser evitadas com uma simples consulta a informações públicas e legais antes da liberação de acesso ao ambiente de trabalho.
O problema não é a falta de consciência sobre o risco. Muitas empresas sempre souberam da importância de avaliação prévia envolvendo a contratação de um novo colaborador. O entrave esteve, historicamente, na forma como esse processo era feito. Práticas antigas como consultas informais, uso de fontes não autorizadas ou exigência de certidões criminais geraram passivos jurídicos e a falsa percepção de que qualquer tipo de verificação seria ilegal ou discriminatória.
Esse entendimento está ultrapassado. Hoje, a tecnologia permite realizar background checks completos, rápidos e juridicamente seguros, utilizando exclusivamente dados públicos e fontes abertas, em conformidade com a LGPD e sem práticas discriminatórias. O que antes levava horas ou dias, agora acontece em segundos, com muito mais precisão e rastreabilidade.
Outro ponto crucial: currículo e experiência avaliam apenas a capacidade técnica. Uma boa contratação exige mais. É fundamental identificar critérios eliminatórios antes mesmo das entrevistas finais, evitando desperdício de tempo, custos de treinamento mal direcionados e decisões baseadas apenas em percepção subjetiva.
Ao contrário do que muitos acreditam, um processo robusto de KYE não torna a seleção mais lenta. Pelo contrário: ele torna o processo mais eficiente, filtrando riscos logo no início e permitindo que gestores foquem apenas em candidatos realmente aptos para a vaga.
A principal mudança que as empresas precisam fazer é cultural. É preciso abandonar o tabu em torno da checagem de antecedentes e entender que o mercado evoluiu. Hoje, não usar tecnologia para esse fim não é cautela, é exposição desnecessária ao risco.
Contratar bem não é apenas escolher o melhor profissional no papel. É garantir segurança, integridade e sustentabilidade para o negócio e para as pessoas que fazem parte dele.