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O paradoxo da inclusão financeira no Brasil em plena era do Pix

Foto: Luciano Alves.
Foto: Luciano Alves.

Por Rafa Cavalcanti, cofundadora e CEO da CloQ.

O Brasil é frequentemente citado como referência global em inovação financeira. O Pix, adotado em larga escala em poucos anos, transformou a forma como pessoas e empresas se relacionam com o dinheiro e colocou o país no radar internacional.

Ainda assim, convivemos com um paradoxo difícil de ignorar: cerca de 1 em cada 5 adultos brasileiros segue fora do sistema financeiro formal.

Dados do Banco Central e estudos do setor indicam que aproximadamente 20% da população adulta do país não tem acesso pleno a serviços básicos como conta bancária, crédito ou poupança.

São dezenas de milhões de pessoas excluídas de um sistema que, ao mesmo tempo, é considerado um dos mais avançados do mundo.

Esse cenário deixa claro que a inclusão financeira não se resume à existência de tecnologia ou infraestrutura. Ter uma conta digital ou uma chave Pix é apenas o primeiro passo.

Inclusão financeira de verdade significa acesso a produtos financeiros que façam sentido para a realidade das pessoas, crédito, seguros, investimentos e até previdência, e que permitam autonomia, planejamento e evolução dentro do sistema.

A exclusão financeira no Brasil é resultado de uma combinação de fatores estruturais. A informalidade no trabalho, a falta de documentação, a desconfiança nas instituições financeiras e produtos que não dialogam com a realidade da base da pirâmide ainda afastam milhões de brasileiros do sistema formal.

Em muitas regiões, especialmente nas áreas rurais e periféricas, o dinheiro em espécie segue sendo o principal meio de troca e reserva de valor.

É nesse contexto que a inovação social e o microcrédito responsável ganham protagonismo. Trabalhar com nano-crédito voltado a trabalhadores informais e pequenos empreendedores é entender que o acesso ao crédito precisa ser gradual, seguro e acompanhado de educação financeira.

Cada pequeno valor liberado pode representar o início de uma nova relação com o dinheiro, mais consciente, estruturada e sustentável.

O Pix é um exemplo claro de como uma tecnologia complexa pode ser traduzida em algo simples e acessível.

O conceito de chave vinculada ao CPF, por exemplo, permitiu que pessoas que nunca haviam utilizado plenamente uma conta digital passassem a enviar e receber dinheiro com facilidade.

Muitas vezes, essas pessoas não dominam todas as funcionalidades de um banco digital, mas sabem usar o Pix no dia a dia. Isso também é inclusão financeira.

O Brasil já construiu uma infraestrutura financeira robusta e admirada internacionalmente. O desafio agora é ampliar o impacto dessa inovação, garantindo que ela chegue a quem ainda está à margem.

Soluções humanas, sustentáveis e alinhadas à realidade da população são essenciais para transformar o que hoje é um paradoxo em um avanço coletivo.

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