A procura de mulheres por formação na área de tecnologia aumentou ao longo de 2025, refletindo um movimento silencioso, porém consistente, de reação a um mercado que ainda impõe barreiras adicionais à progressão feminina.
Cursos técnicos, certificações e programas de capacitação passaram a ser vistos não apenas como porta de entrada, mas como estratégia para disputar espaço em um setor marcado por desigualdade de gênero.
Na Escola da Nuvem, organização voltada à formação em tecnologia, o avanço da participação feminina ficou evidente ao longo do último ano.
Em 2024, as mulheres representavam 40,8% dos alunos que buscavam a instituição. Em 2025, esse percentual saltou para 50,3%, indicando uma virada relevante no perfil de quem procura qualificação na área.
Para Ana Leticia Lucca, CRO da Escola da Nuvem, o movimento reflete uma leitura pragmática do mercado.
“Muitas mulheres chegam buscando formação porque sabem que, sem uma base técnica forte, elas nem entram no processo. Existe uma consciência muito clara de que a régua é mais alta para elas”.
A percepção se confirma nos dados do relatório “FOMO at work: The opportunity gap between men and women in tech”.
Enquanto 75% dos homens acreditam que há igualdade no desenvolvimento de carreira, apenas 60% das mulheres concordam. Para 38% delas, as oportunidades não são iguais, contra 24% dos homens.
A consequência aparece na rotina: 67% das mulheres dizem sentir que precisam trabalhar mais horas para avançar profissionalmente, frente a 56% dos homens.
O peso da conciliação entre vida pessoal e profissional também recai de forma desigual. Segundo o estudo, 63% das mulheres afirmam que esse fator impacta significativamente ou de forma extrema sua progressão de carreira, percentual bem superior ao dos homens (49%).
Mais da metade delas (52%) teme que faltar a eventos profissionais por compromissos familiares prejudique sua trajetória.
“Essa busca por capacitação vem muito ligada à ideia de proteção de carreira. A formação passa a ser uma forma de reduzir vulnerabilidades em um ambiente que ainda penaliza mais as mulheres”.
Na América Latina, o cenário é ainda mais complexo. O estudo “Closing the Gender Gap in Latin American Technology”, da McKinsey, mostra que, apesar da expansão do setor, a desigualdade de gênero na liderança voltou a crescer em 2022, a primeira vez desde 2016.
As mulheres estão migrando para a tecnologia em proporção duas vezes maior que a dos homens, muitas vezes vindas de áreas como saúde e ciências sociais.
Ainda assim, permanecem concentradas em funções como UX, UI, design e análise de dados, com presença quase inexistente em áreas como desenvolvimento back-end e cibersegurança.
O gargalo aparece logo no início do funil. As mulheres representam apenas um terço dos candidatos às vagas de tecnologia, ainda que a taxa de contratação após entrevistas seja semelhante à dos homens.
“Sem formação técnica, a mulher fica fora do jogo antes mesmo da entrevista. Isso ajuda a explicar por que tantas estão buscando cursos agora”.
A desigualdade salarial reforça essa lógica. Na América Latina, mulheres ganham, em média, 24% menos que os homens no setor de tecnologia, e apenas um quarto das grandes empresas possui políticas estruturadas de equidade salarial.
À medida que a carreira avança, a presença feminina diminui: elas ocupam até 40% das posições iniciais, mas chegam a no máximo 30% dos cargos de liderança sênior.
Para Ana Leticia, o aumento da procura por formação revela uma tentativa de romper o chamado “degrau quebrado” da carreira.
“Quando elas conseguem acessar áreas mais técnicas e valorizadas, as chances de crescimento e permanência aumentam. A educação vira um instrumento concreto de mudança”, finaliza.