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A complexidade de uma atuação global

Foto: divulgação.
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Por Ronald Dener, CEO e cofundador da Capyba Software.

A atuação internacional de empresas brasileiras que exportam serviços representa hoje uma das principais fronteiras de crescimento econômico do país.

Trata-se de um mercado em expansão global e também de um ambiente que exige preparação estratégica, adaptação regulatória e capacidade de navegar em diferentes contextos culturais e de negócios.

O comércio mundial de serviços já movimenta cerca de US$ 22,5 trilhões por ano, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), e cresce em ritmo superior ao comércio de bens. Ainda assim, a presença brasileira nesse cenário ainda é relativamente modesta.

De acordo com o relatório World Trade Statistical Review, também da OMC, as exportações de serviços do Brasil correspondem a cerca de 2,1% do PIB, colocando o país na 38ª posição no ranking global.

Esse contraste entre potencial e presença internacional revela um ponto central: internacionalizar serviços a partir do Brasil exige enfrentar uma complexidade que começa dentro das próprias fronteiras, mas que também vem sendo progressivamente enfrentada por iniciativas públicas, programas de fomento e ecossistemas de inovação.

Um dos desafios mais conhecidos está na baixa densidade da base exportadora nacional.

Segundo o estudo Perfil das Empresas Exportadoras Brasileiras, publicado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), apenas cerca de 1% das empresas brasileiras iniciam atividades de exportação nos seus primeiros dez anos de operação.

A propensão a exportar também cresce conforme o porte das organizações: enquanto apenas uma pequena parcela das pequenas empresas atua no exterior, entre companhias com mais de 250 funcionários o índice supera 20%.

Quando o assunto é exportação de serviços, os desafios assumem características próprias. Diferentemente da venda de produtos físicos, serviços exigem adequação a legislações estrangeiras, normas técnicas e regras fiscais que variam significativamente entre países.

Em setores intensivos em conhecimento, como tecnologia, engenharia e consultoria, também é necessário atender a exigências de compliance e proteção de dados, como o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR), na União Europeia, ou normas específicas de contratação pública em determinados mercados.

A burocracia doméstica ainda adiciona camadas extras de complexidade. Estudos apontam que a ausência de padronização em processos administrativos e a multiplicidade de órgãos reguladores podem gerar custos adicionais e insegurança jurídica.

Para empresas de serviços, isso pode se refletir em desafios relacionados à emissão de documentos fiscais internacionais, enquadramentos tributários e processos de recebimento de pagamentos do exterior.

Ao mesmo tempo, o avanço recente das exportações brasileiras de serviços demonstra que esse cenário está em transformação.

Segundo o relatório Balanço das Exportações de Serviços 2023, divulgado pelo MDIC, o país registrou recorde de US$ 45,2 bilhões em exportações no setor, com crescimento superior a 12% em relação ao ano anterior.

Parte desse avanço está diretamente relacionada ao fortalecimento de iniciativas de apoio à internacionalização. Programas conduzidos por instituições, como a ApexBrasil, têm desempenhado um papel importante ao oferecer capacitação, inteligência de mercado e conexões estratégicas para empresas que desejam expandir suas operações para outros países.

Essas iniciativas ajudam a reduzir barreiras iniciais e aproximar companhias brasileiras de oportunidades em mercados internacionais.

Outro exemplo relevante vem dos ecossistemas de inovação regionais. O Porto Digital, em Recife, por exemplo, desenvolve programas voltados à internacionalização de empresas de tecnologia, apoiando startups e companhias consolidadas na construção de presença global, seja por meio de missões internacionais, conexões com investidores ou abertura de operações no exterior.

Essas iniciativas são particularmente importantes para empresas de serviços baseados em conhecimento, que encontram na digitalização e na tecnologia um caminho natural para escalar suas operações globalmente.

Soluções digitais, plataformas tecnológicas e serviços especializados têm reduzido barreiras geográficas e ampliado as possibilidades de atuação internacional para empresas brasileiras.

Outro fator decisivo nesse processo é o capital humano. A exportação de serviços exige profissionais com domínio de idiomas, capacidade de negociação intercultural e formação técnica alinhada a padrões internacionais.

A construção dessa base de talentos tem sido fundamental para permitir que empresas brasileiras atuem com competitividade em mercados cada vez mais exigentes.

Em síntese, a complexidade de uma atuação global para empresas brasileiras que exportam serviços resulta da combinação entre desafios estruturais e oportunidades em expansão.

Burocracia, diferenças regulatórias e custos operacionais continuam sendo obstáculos relevantes, mas iniciativas de fomento, ecossistemas de inovação e o avanço da economia digital têm contribuído para criar um ambiente cada vez mais favorável à internacionalização.

Por fim, o crescimento recente das exportações de serviços mostra que, quando há planejamento estratégico, apoio institucional e capacidade de adaptação, empresas brasileiras conseguem transformar complexidade em oportunidade, e ampliar sua presença em um mercado global que valoriza cada vez mais conhecimento, tecnologia e inovação.

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