Por Renan Georges, fundador e CEO da Zavii Venture Builder.
Durante décadas, construir uma empresa financeira era um processo lento, caro e altamente concentrado. A infraestrutura necessária para operar pagamentos, crédito ou transferências exigia sistemas proprietários, integração com bancos, autorização regulatória e grandes investimentos em tecnologia.
Esse cenário começou a mudar com a digitalização do sistema financeiro, mas a transformação mais profunda está acontecendo agora.
A combinação entre infraestrutura em nuvem, APIs financeiras e tecnologias baseadas em blockchain está alterando a própria arquitetura do dinheiro.
Para entender o que está acontecendo, vale olhar para outro setor que passou por uma revolução semelhante: o software.
Durante muito tempo, empresas precisavam instalar programas localmente, comprar servidores e manter equipes dedicadas à infraestrutura tecnológica.
Com o surgimento da cloud computing, esse modelo mudou radicalmente. O software passou a ser entregue como serviço: o conhecido Software as a Service (SaaS).
O que estamos começando a ver no setor financeiro é algo semelhante.
O dinheiro está se tornando infraestrutura programável, acessível por meio de APIs, plataformas e protocolos digitais. Em outras palavras, está começando a operar como um serviço.
Hoje, empresas conseguem integrar pagamentos, contas digitais, crédito e sistemas de liquidação utilizando plataformas que abstraem grande parte da complexidade tecnológica que antes existia.
Assim como a cloud permitiu que milhares de startups surgissem sem precisar construir data centers, a infraestrutura financeira moderna permite que empreendedores criem produtos financeiros sem precisar construir bancos.
Provedores de Banking as a Service, plataformas de pagamentos, APIs de compliance e sistemas de identidade digital formam uma nova base sobre a qual empresas podem desenvolver soluções rapidamente.
Nesse contexto, o blockchain adiciona um elemento ainda mais interessante: a programabilidade do dinheiro.
Protocolos descentralizados permitem criar sistemas de registro, liquidação e transferência de valor sem depender exclusivamente de intermediários tradicionais. Isso abre espaço para novos modelos de operação financeira, especialmente em áreas como pagamentos internacionais, tokenização de ativos e contratos inteligentes.
A consequência disso é uma mudança na lógica de criação de startups.
Historicamente, fintechs precisavam começar resolvendo problemas de infraestrutura. Hoje, muitas delas podem nascer diretamente na camada de aplicação, focando na experiência do usuário e no design do produto.
Essa mudança reduz barreiras de entrada e acelera o ciclo de inovação.
Para Venture Builders, isso representa uma oportunidade relevante. A construção de novas empresas passa a depender menos de grandes investimentos iniciais em tecnologia e mais da capacidade de identificar oportunidades estruturais no mercado.
O papel do empreendedor muda. Em vez de construir toda a infraestrutura do zero, ele passa a orquestrar diferentes camadas tecnológicas já disponíveis.
Esse modelo tende a gerar uma nova geração de startups financeiras mais especializadas. Em vez de tentar reproduzir o modelo de um banco completo, essas empresas se concentram em resolver problemas específicos da economia digital.
Algumas se especializam em pagamentos para nichos de mercado. Outras criam soluções de crédito baseadas em dados. Outras exploram tokenização, liquidação digital ou novos modelos de infraestrutura financeira.
O ponto central é que o dinheiro está deixando de ser apenas um instrumento econômico para se tornar uma plataforma tecnológica.
Essa mudança ainda está em curso, mas suas implicações são profundas.
Assim como a cloud redefiniu a indústria de software e permitiu o surgimento de milhares de novas empresas, a infraestrutura financeira programável tende a redefinir a forma como startups financeiras são criadas.
Para empreendedores, investidores e construtores de empresas, compreender essa transformação não é apenas uma questão tecnológica.
É entender a nova arquitetura sobre a qual a economia digital está sendo construída.